segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Parte 6 - Johanna, Manuela e Sabine.

  Eu estava preparada para fazer aquilo que sempre sonhei. Estava preparada para jogar-me no mundo como nunca fiz antes na vida, estava preparada para sorrir e para sonhar. Para fazer os sonhos virarem realidade. Nunca senti-me tão feliz por ir à cidade, Sabine me disse que isso significa fazer coisas erradas sem que os pais saibam, o que era uma coisa comum por ali (não estou sendo prepotente, ela que me disse isso). E finalmente enquanto me trocava me senti feliz, me senti bonita, me senti invencível. "Que venha Manuela" pensei eu. Pois eu coloquei uma calça! Uma calça de flanela cor de chumbo com uma camisa de algodão branca enfiada e afofada, com um colete de couro e botas de feltro. Mas ainda não era a melhor parte, ela só ocorreu quando eu finalmente soltei o cabelo. Quando toquei-o, quando peguei-o e deixei-o escorrer por entre os dedos, quando brinquei com ele e passei as mãos por toda sua extensão. Ele era comprido, longo e com fios finos e louros acinzentados, que formavam cachos bonitos. Eles tinham o tamanho dos cabelos de Manuela e eu nunca me senti tão bonita quanto me sentia. Se Joe me visse... Provavelmente me espancaria, aquela atitude era intolerável. Mas vestir-me como homem foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Era fim de tarde e todos estavam se preparando para a noite, o comércio ainda estava aberto, mas fecharia logo. Os bares encheriam as ruas e a música começaria, além da luz e das risadas, ouviríamos também as histórias dos bêbados sobre mulheres e pescaria misturado com o cheiro de cerveja e costela de carneiro. Tudo isso era deliciosamente tentador e eu queria mais era me jogar no meio disso tudo e fechar os olhos para ver o que aconteceria. "Você seria violentada, ou assassinada" disse Sabine.
  - Não faça barulho, meu pai e Albert estão em casa e se nos virem com essas roupas estamos mortas. - alertou-me Sabine.
  Ela disse à Tânia que iriamos jantar na casa de uma amiga sua do colégio e que voltaríamos tarde. Oh Tânia, pobre Tânia. Houve até uma leviana brincadeira sobre tal assunto.
   - Não engane Tânia perto de Manuela, senão ela te empurra no meio do Oceano.
   - Não farei isso perto dela, obrigada pelo aviso. - uma piscadela com os olhos de esmeralda. As mulheres daqui parecem muito mais belas do que as mulheres da cidade grande e isso estava me irritando. Eu me sentia um pedaço de maçã podre perto de tais beldades.
    Mas enfim chegamos ao centro do mundo, ao meu lugar no Universo.
    E entramos de cabeça no bar.
    Como homens de cabelos sedosos e compridos. Como senhores que possuíam glândulas mamarias e coxas femininas. Mas não eramos a única, pois já havia uma figura ali.
    E ela estava tão parecida comigo em sua roupa, uma calça de flanela também cor de chumbo e uma camisa de algodão também branca, e botas igualmente de feltro. Só tinha cabelos pretos e olhos verdes (e um rosto feito diretamente por Deus). Ela estava muito bêbada e era fácil perceber isso pelo modo como ela gritava e ria, como se não tivesse ocorrido nada naquela tarde. Eu fiquei irada, mas feliz, ela provavelmente não se lembraria de mim.
   - Sabine!!!!! Minha querida SabineEeEeEeE - não se lembrou de mim, mas se lembrou de Sabine. E veio cantarolando até nós.
   - Olá Manuela! - disse Sabine numa felicidade incalculável. Fiquei com inveja/ciúme de sua amizade com Manuela.
     Elas se abraçaram e algum homem muito feio e muito barbudo murmurou alguma coisa para Manuela, que com delicadeza respondeu:
   - Vá a merda. Já estou indo. - e olhou para mim - Moça da cidade grande! - reconheceu-me.
   - Boa tarde Manuela.
   - Já te mandei ir à merda também? - e com uma cambaleada violenta, quase me jogou por cima do balcão enquanto me abraçava pelo pescoço. - O negócio é o seguinte, se você está dentro de um bar depois das cinco horas da tarde, seus modos ficam na porta.
     E com uma piscadela marota, se afastou e voltou para a mesa. Deduzi que estivesse jogando pôquer com os homens de meia idade. Não me interessei por Manuela depois daquele desencontro. Virei-me para Sabine, que me olhava com uma expressão de indiferença, mas percebi que em suas mãos delicadas haviam duas canecas grandes e espumantes. Cerveja. Tive certeza.
    - Da melhor choperia do mundo, para as nossas gargantas.
    Garganta virgem, só para constar. Eu nunca tinha colocado uma gota de álcool barato na minha vida. A sensação foi horrível, eu odiei o gosto. Quase morri de decepção. Mas ninguém precisava saber. Então me esbaldei de canecos e mais canecos de inúmeros litros de Cerveja Alemã Larger Hofbräu Munchen. Ouvi comentários de que o produtor da cerveja, a empresa Hofbräu era a maior produtora de cerveja da Alemanha e do mundo, "já que os alemães são melhores em tudo" e estava localizada em Munique, próximo a Stuttgart. Toda vez que ouvia falar do nome da cidade, tinha vontade de gritar. Era tão longe. Munique também era tão longe. Estava tão, tão longe! E as coisas que eu começava a gostar também estavam tão distantes de casa. Onde mais eu beberia cerveja se não fosse em Stuttgart? E se Munique (que era a cidade perfeita) produzia uma cerveja tão ruim (ao meu gosto[porém tragável ), imagine os lixos que rodeavam Berlim? Não gostava de me sentir daquele jeito, era quase desprezível. Me revirava o estômago, me levava lembranças que eu não queria lembrar, não ali, não naquele momento. Eu queria mais era esquecer daquilo tudo e ir dançar, jogar pôquer (mesmo que não soubesse) e gritar feito... Feito... Feito Manuela. Alguma coisa naquela mulher me prendia a atenção, como se me atraísse. E por mais que eu enchesse a cara, não conseguia fazer as coisas ruins irem embora, me deixarem em paz. Elas iam e vinham como enxurradas, o tempo todo. "Saiam malditas!", tentei gritar. "Saiam!!". E nada acontecia. Eu continuava a me lembrar de casa, a me sentir triste, me sentir uma traidora. Continuava a pensar nos meus pais e em como eles corriam perigo, enquanto eu me embebedava. Só não cai aos prantos ali mesmo, porque alguém se sentou do meu lado, e começou o diálogo mais anormal da minha vida.
  - Que é? Que está havendo? - perguntou Manuela, com uma sutileza encantadora.
  - Não te interessa, me deixe em paz. - Respondi. Estava borbulhando de ódio, raiva e... vontade de tê-la por ali, ao meu lado.
  - Olhe, desculpe pelo que houve hoje. Eu explodi. Não sou assim. - e pegou na minha mão - Juro. Não sou esse tipo de pessoa que mostrei para você, deixe-me melhorar isso!
  - Como você melhoraria? - perguntei. Desafiando seus olhos cor de esmeralda viva.
  - Deixe-me leva-lá para conhecer a cidade. - E chegou mais perto do meu rosto.
  - Sabine já está encarregada disso. - Respondi com frieza, sem me esquivar de seus atos, deixando que ela conduzisse, que tivesse controle.
  - Então vou leva-lá à outro lugar, que nem mesmo Sabine conhece! - E com um sorriso orgulhoso e satisfeito, se afastou e pegou um copo de cerveja.
   Eu não queria que ela tivesse se afastado, queria que ela ficasse perto de mim. Me sentia segura, me sentia... diferente.
  - Por que você está fazendo isso afinal? - perguntei - Há menos de duas horas você me jogou por cima de uma mesa.
  - Já te disse que não estava muito bem. - Disse isso e limpou a espuma da cerveja que lhe sobrou nos lábios com as mangas da blusa. - E, eu gosto de você.
  - Como se nem me conhece? - minha raiva tinha cessado. O que era aquilo? Qual o poder aquela moça tinha sobre as pessoas?
  - Mas quero conhecê-la. Qual é o teu nome? - e chegou novamente bem perto do meu rosto.
  - Johanna.
  - Bonito nome, combina com você. Você é muito bonita. - com o dedo indicador, afastou uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha - Deixe-me redimir Johanna. Estou sendo sincera.

  Não sei onde estou com a cabeça...
  - Não sei bem... - e baixei a cabeça.
  - Pense bem, eu não sou um monstro - e levantou meu rosto. Seus olhos haviam escurecido com uma rapidez surreal, há meio segundo estavam brilhantes e agora, estavam opacos e distantes. Fitando-me.
   Eu fui para frente, com intenção de beijá-la.
   Ela largou meu rosto, e saiu.
   E... E... E... O que tinha sido aquilo? O que houve? Eu havia... flertado? FLERTADO? COM UMA MULHER? O que estava acontecendo? Precisava ir embora. Precisa encontrar Sabine. Estava em pânico. Assustada, enjoada, deslocada... derrotada. Me senti tonta. Como se o álcool finalmente tivesse resolvido surtir um efeito. Não era uma boa hora. Eu ia morrer.
  - Sabine! Sabine! - berrei. Precisava sair daquele lugar o mais rápido possível - Sabine!
  - Que foi?
  - Sabine... Me leve embora daqui!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Parte 5 - Johanna, Manuela e Sabine

    Tânia com certeza me salvou, minha (já) querida tia que eu nunca ao menos lembro-me de ter visto. Bom é claro que eu não me lembro, tinha apenas 5 anos e agora tenho 25. Se pensa que tenho memória de elefante se enganou, pois não tenho. Desculpe, não quis ser grosseira, mas sempre acontece quando estou perto daquele monstro que chamam de "Manuela", tenho vontade de vomitar quando aquela vaca branca chega perto de mim, e se já não bastasse fazer sons de ânsia para ela se afastar eu tenho que ser gentil, pois sou uma pessoa educada. Hoje ela chegou na cozinha, como se a casa fosse dela, no exato momento que eu disse que seria uma grande merda me casar com Joe e não amá-lo, creio que ela não ouviu, mas isso não me impediu de ter ficado vermelha como um tomate. E minha Tia Tânia (vejam só!) adora aquela moleca como todos os outros da casa! Se já não bastasse os meus primos, até a única pessoa que mostrava-se viva e cortês (além de Sabine) se virava contra mim. Só não entendo o que tem de tão especial naquela desgraça de pessoa, ela é tão nojenta e sem modos, tão.. tão homem. O problema é que por mais que me arda a alma dizer isso, Manuela é muito bonita. E não um bonita de falsidade (para me mostrar superior), a maldita é mesmo bonita. Bonita que me corta a cabeça de tanta inveja. Ela tinha uma cascata (uma CASCATA) de cabelos negros que iam soltos e ondulados até o traseiro, geralmente (bem as vezes) ela usava um rabo de cavalo que deixava seu rosto de porcelana mais bonito (perfeito e intocado) e eu pulava pulos que me dariam medalhas olímpicas de inveja. Creio que já mencionei a beleza da ser humana? Mas repito, o rosto da vagabunda é o mais bonito que já vi, me senti apodrecendo perto dela. Não sou muito de falar palavrão, mas penso em tantos que é até pecado. Digo isso porque não vi ninguém falar algum por aqui, e olha... lembro-me agora de quem quebrou essa referência... vamos adivinhe!

  - Tânia, que desgraça de jarro é esse? - disse para Tia Tânia, pegando um jarro de bronze que estava na grande pia. - Está todo amassado! Puta que pariu, nem parece que vocês são ricos.
 
    E eu, sentada em meu canto terminando meu delicioso copo de vinho arregalei os olhos para o animal a minha frente, ela logo percebeu.
  - Que tá olhando hein? - perguntou pra mim, desafiando-me - algum problema moça?
  - Nenhum senhorita. - respondi eu, sorridente e fofa. Digo-lhe agora que queria estrangular a criatura com a alça do jarro.
  - Vá tomar no cú então, não estou sendo paga para te aguentar. - e voltando a atenção a Tânia continuou - e então Tânia, quer que eu leve para o Josef? Não precisa pagar nada. É um presente.
  - Que tipo de gente dá um conserto num jarro de presente? Jesus, Maria e José! - eu disse quase como um rato de tão baixo, mas o diabo ouviu.
  - O tipo de gente que não está se dirigindo à você. E saiba, senhorita, que isso é uma cortesia muito grande aqui em Stuttgart. Não é Tânia?

  Então era em Stuttgart que eu me encontrava. Pensei em responder, mas não. Outra coisa me perturbava. Estava fazendo os cálculos geográficos que meu pai me ensinou pelo mapa, quantos diabos de quilômetros seria de Berlim à Stuttgart? Eu sabia! Tinha certeza que sabia, pois eu já estudei sobre Stuttgart. Só preciso me lembrar, um pouquinho. E então encontrei. Encontrei a distância e quase tive um colapso nervoso de medo, terror e traição. Estava praticamente oitocentos quilômetros de casa! OITOCENTOS QUILÔMETROS! Por que? Por que tão longe?
  - Onde eu estou?! - comecei a gritar, o pânico me atordoou - AONDE DIABOS EU ESTOU?
  - Está gritando por quê? - Manuela começou a gritar também - Está em Stuttgart, é surda também?
  - Por que Tânia? O que eu estou fazendo aqui? Por quê tão longe de casa?
  - Calma Jô.. Acalme-se. Manuela, pegue um copo de água para ela - tentou acalmar-me.
  - Não quero água, quero voltar para casa. QUERO VOLTAR PARA CASA AGORA! - e comecei a gritar com Tânia.
  - Ei guria, segure-se! - volte-se para mim, a felina.
  - Cale essa sua boca seu animal! - eu vociferei para ela - Você não sabe o que está acontecendo aqui!
  - Mas não vou deixar você gritar desse jeito com a Tânia! - e deu um passo pra frente que me fez recuar, mas logo retomei a coragem e fui pra cima dela - Cale a boca você, sente-se e acalme-se!
  - Vá à merda Manuela. Você não tem nada a ver com a minha vida.
  - Graças ao bom Deus eu não tenho nada a ver com essa vida maldita. Agora sente-se. - E veio para cima de mim com o braço levantado, como se fosse me dar um soco na cara.
  - Saia de perto de mim!! - eu gritei.
  - SENTE-SE! - gritou ela, muito perto de mim - AGORA!
  E então me empurrou para trás. Eu, magrela e desequilibrada não fiz nada mais do que cair em cima da mesa e depois no chão. Tânia com a mão na boca e os olhos arregalados não parava de fitar-me, com horror. E Manuela, com o rosto vermelho de raiva e com os olhos verdes muito muito escuros ainda me encarava com as mãos no alto, ela viria para cima de mim. Eu estava realmente assustada. Manuela parecia forte, mas ela era uma montanha. Eu nunca senti-me tão indefesa e inútil quanto me sentia no momento e quando ela me empurrou, eu senti-me jogada em frente a uma manada de búfalos. Então comecei a chorar e ela baixou os braços. E voltou-se para Tânia.
  - Tânia, me desculpe, eu não quis... Eu... - e parou de falar.
  - Não se preocupe querida, está tudo bem. - disse Tânia à ela, sorrindo docemente e arrumando seus cabelos. - Acho melhor você esperar aqui. - e depois voltou-se à mim.
  - Tudo bem querida? - perguntou para mim, com um olhar materno.
   Eu apenas fiz que não com a cabeça e desabei a chorar novamente. Antes de baixar a cabeça entre os joelhos olhei de relance para Manuela, e em seu rosto não achei uma única expressão de arrependimento. Era como se ela recolhesse sua alma para dentro do corpo e ficasse com um expressão indiferente, mas eu sabia que ela estava ali. E apenas agiu como se não houvesse nada, sem culpa e sem arrependimento. Tão fria que me perfurou.
   Logo Sabine entrou na cozinha.
  -  O que diabos está acontecendo aqui? - e quando me viu caída chorando entrou em surto também - Oh meu Deus, o que houve? O que aconteceu?
  Fez com que eu me levantasse. E me guiou pelo vestíbulo até as escadas e subiu comigo até o quarto onde me depositou na cama e me abraçou. Eu já havia desistido de chorar. Apenas abracei-a e fechei os olhos firmemente, fazendo as últimas lágrimas caírem. Ela tirou meu cabelo do rosto, eu estava horrorosa.
  - O que aconteceu lá embaixo? - perguntou-me.
  - Manuela me empurrou na mesa.
  - Como assim? - ela fez uma cara de espanto, como se Manuela nunca tivesse feito nada da espécie.
  - Ela me empurrou porque eu gritei com sua mãe.
   Ela pensou um pouco e voltou a falar:
  - Manuela considera mamãe como sua própria. Sua mãe morreu há muitos anos, nós cuidamos dela desde então.
  - Eu não sabia... Eu só estava assutada... Não foi por mal..
  - Acalme-se Jô, ninguém está te julgando, está tudo bem. O que te assustou?
  - Estou tão longe de casa!
  - Ah sim... Está um pouco. Mas é para o nosso bem, o meu, o seu e da nossa família.
  - O que está acontecendo Sabine? Me diga, por favor! Só tenho você ao meu lado!
  - Ora pare com isso, não tem só a mim. Eu sou apenas mais uma das pessoas que te amam querida. E você logo saberá o que está acontecendo. Por enquanto descanse.
  - Mais? Eu já descansei dois dias!
  - Então se arrume e vamos dar um passeio!
  - Mas eu estou horrível !
  - Por isso vai se arrumar! E ande logo, o comercio já deve estar aberto!
 

Parte 4 - Johanna e Tânia.


 Outubro de 1939. Pleno outono na Alemanha. Como dito anteriormente, eu só acordei dois dias depois que cheguei a maldita cidadela. Pelo que vi, a cidade não passava de um povoado minúsculo. Não se comparava a grandeza da metrópole, Berlim. E meu subconsciente ainda se debatia se isso era um ponto ruim ou bom. Quando eu acordei e me levantei, quase caí para trás. O sol entrava pelas cortinas e quase cegava. Era tão quente e acolhedor. Eu fiquei irada quando vi aquilo, afinal, o dia tinha que ser bizarro e nebuloso para me motivar a não levantar. Mas tinha mesmo que nascer belo e sorridente. "Tudo bem", pensei. "Uma hora eu terei que me levantar", encorajei-me. "Pode ser agora". E então me levantei da cama, afim de tomar ar da janela. Eu olhei em volta da casa e percebi que ela deveria ser a última do bairro que estava localizada, pois só havia gramado atrás e ao fundo, uma floresta. Devia ser uma floresta, eu não sabia ao certo. Pelo menos, era cercado de árvores e isso me deu o poder de intitulá-la floresta. Olhei em volta do meu quarto, e era muito elegante. Tinha um papel de parede enjoativamente rosa claro e uma mobília combinando. Um espelho, uma escrivaninha, um armário, uma mesinha ao lado da cama, a cama, e acessórios (abajur, tapete...). Então eu me vesti normalmente, sem pompons. E abri a porta.
   A casa era surpreendentemente grande. A porta do meu quarto se localizava em um corredor cheio de portas iguais a minha. Uma escada de descida a minha esquerda e uma outra de subida. Eu claro, desci. E encontrei um vestíbulo muito bem polido e brilhante, com mobília envernizada. Várias divisas de cômodos enfeitavam o grande salão.  Sala de visita, sala de jantar, biblioteca, um corredor, cozinha, banheiro e outras coisas que eu não quis vasculhar. Eu não fazia questão de conhecer a casa, pois eu sairia dali logo, então decidi que não fuçaria em nada, para não me interessar e convencer-me a ficar. Ouvi um farfalhar sedutor na cozinha, uma coisa convidando-me a entrar; Era o som de panelas tintilando e não sei porque diabos aquilo me atraiu. Não era do tipo que limpava panelas ou cozinhava. Cozinhar era uma realidade distante da minha. Mas vi uma senhora, não uma velha, apenas uma senhora, fuçando num armário de panelas desajeitadamente. Ela estava tão elegante para procurar panelas que eu até me assustei.
  - Ahh bom dia! - Ela virou-se para mim e foi como se visse um leproso completamente curado - Que bom que se levantou! Já estava ficando preocupada... Sente-se, sente-se. Gostaria de beber algo? Um pouco de café quem sabe? Para lhe ajudar a ter energia? Ou vinho? Ah vinho! Seria ótimo beber um pouco de vinho não seria? - e ela foi, vasculhando por entre os armários a procura de taças, encontrando a garrafa de vinho Eiswein e levando-o consigo ao caminho das taças - Este vinho é maravilhoso! As suas uvas são colhidas no inverno e ele é amassado somente por mulheres louras vindas das grandes cidades! - então ela deu uma cheirada no conteúdo - Wunderbar ! - e quando encontrou as taças colocou-as na mesa e chamou-me com um aceno de mão - Aproxime-se querida, venha deliciar essa obra prima das mulheres!
   Eu eu ria, deliciada com a situação. Ela devia ter uns cinquenta anos, mas era jovial. E com uma energia extravagante! Quando provei o vinho, senti sua excitação fora do normal. Era tão delicioso que eu passaria a vida toda embriagada e embargada com aquele gosto na boca sem me queixar. Era uma safra antiga e deliciosa.
  - Lecker ! Um ótimo vinho! - eu sorria e fazia o conteúdo rebolar dentro da taça - Desculpe-me -disse envergonhada - Quem é a senhora?
  - Ahh querida... Tânia! Titia Tânia Ackerman. Sou a pobre irmã de seu pai! - extravagante e contagiosa, eu queria dançar ao lado daquela mulher - Bom, sou eu. E você, linda Jô! Tão crescida e tão moça. A última vez que te vi você tinha apenas cinco aninhos. Estou tão feliz de recebê-la! 
  - Não quero atrapalhar em nada.. 
  - Jamais querida! Nem pense nisso! É ótimo tê-la aqui. Sabine está irradiante por sua companhia. Conheceu Sabine não é? Ela te buscou na rodoviária? 
  - Sim, Sabine e mais três. 
  - Ah sim, meus quatro tesouros. Sabine, Camila, Anne e Albert. Conheceu todos? O que achou deles? 
  - Sim, conheci a todos. São muito simpáticos. Os olhos de Sabine são lindos. 
  - Ahhh, Sabine e seus olhos. Ela os herdou do pai. Todos estão felizes em recebê-la aqui. 
  - Será que posso perguntar...A idade deles? - eu hesitei, geralmente perguntas daquela espécie eram tomadas como ofensas. 
  - Ora, mas é claro que pode. Sabine é a mais velha, tem 25 anos, como você. Camila tem 23, Anne tem 21 e Albert 19. Me casei nova Johanna, com apenas 22 anos. 
   Eu não soube o que dizer. Diria "que pena"? Seria uma ofensa aos filhos. E se dissesse "que ótimo" seria uma ofensa sobre a sua infelicidade em casar nova. Então, fiz uma pergunta ainda mais arriscada. 
  - Mas você ama seu marido? 
  É claro que minha tia ficou chocada. Eu não tinha direito de invadir sua  vida pessoal daquela maneira, não tinha afinidade muito menos intimidade para fazê-lo. Uma extrema falta de educação. 
  - Não naquele tempo. Mas eu o amo muito hoje. Amo-o demais. 
  - Isso é bom. 
  O silêncio constrangedor se estabeleceu novamente pela cozinha. Então Tânia guardou o vinho em seu armário e voltou-se para mim, sentando-se na mesa, bem em frente ao meu rosto. 
  - Você está para se casar, não está? 
  - Sim estou. 
  - E onde está seu noivo? 
  - Na guerra. 
  - Luftwaffe? 
  - Provavelmente. Prefiro não saber,
  - E por quê prefere não saber? Você sofreria se soubesse? 
  - Ainda não sei se sofreria. 
  Adorava Joe, realmente o adorava mesmo sendo obrigada a casar com ele, coisa que eu adiei por muito tempo.  Nem sei como meus pais não desconfiaram de todas as minhas artimanhas para enganá-los quanto ao assunto "casar-me com Joe", o fato era: eu não queria me casar com Joe e ponto final. Mas ninguém nunca me ouviu, então estar longe de Joe pelo tempo da guerra era um alívio, quase como se me livrasse do carma, mas por outro lado era triste, porque Joe sempre foi um ótimo amigo e excelente ouvinte, sempre teve certeza que eu o amava e por isso ficava o máximo de tempo comigo, isso era muito agradável até o momento que ele decidiu pressionar-me quanto a data do nosso casamento, e ocorreu apenas três semanas antes dele ser obrigado a ir para a guerra. Deus abençoe Hitler por isso. Ah desculpe-me, não devia falar essas coisas! Aquele homem maldito!! Mas Joe era simplesmente um jovem apaixonado pela vida. Seu grande sonho era ser um escritor de fantasia ou um artista surrealista como Salvador Dalí, mas o pai o obrigou a prestar Direito e ele, teve de fazê-lo. Joe vinha de uma ilustre família de advogados nojentos, no qual todos eles faziam parte (enchendo o peito para falar) da lista mais importante do Partido Nazista. Minha família, também muito rica e do ramo de engenharia fazia parte do Partido Nazista, porém, simplesmente para se camuflar dos verdadeiros nazistas. Joe vomitava palavras de orgulho por ser alemão, por ser nazista, por ser alemão, por ser louro, por ser alemão... Ele também fez parte da Escola Militar Hitlerista e era um colírio. Muitas moças dignas eram loucas e caídas por Joe, e ele caia na gandaia com várias delas durante as noites do nosso noivado porque eu sempre soube (afinal, é isso que se ganha quando é amiga dos empregados que sempre estão nas noitadas da cidade) e eu nunca liguei, nunca amei-o e pelo que sentia nunca o amaria. Era mais fácil amar Sabine do que amar Joe. 
  - Você o ama? - perguntou-me ela. 
  - Não. 
  - Você quer se casar com ele?  
  - Jamais. Mas creio que minhas vontades nem sempre são bem atendidas, ou bem compreendidas. 
  - Você ainda é criança para tomar decisões, creio que seus pais saibam o que estão fazendo. Você acha que poderia ama-lo algum dia? 
  - Acho que sim. Mas não o amo agora. 
  - Eu nunca achei que amaria seu tio. Será que os processos se invertem? E se você nunca amar Joe? 
  - Seria uma grande merda! 
  E caímos na risada, naquela cozinha bem planejada e iluminada.  

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Parte 3 - Johanna e Manuela.

Já contei como foi insuportável andar pela cidade interiorana? Acho que sim, mas devo lhe acrescentar, que tudo o que você deve ter pensando não é tão ruim quanto imagina. É bem pior. Além de ter sido ridículo, pois todas as moças usavam algo nos pés mais parecido com galochas do que com o sapatinho de salto que em meu pé estava descansado confortavelmente. E os moços, todos com roupas surradas de trabalho no campo. Lembro-me especialmente dos casacos de couro que eles usavam e que em muito me atraíram. Eu sempre quis usar casaco de couro por cima de uma blusa de algodão, enfiada numa calça de flanela e com os com as pernas cobertas até os tornozelos por uma bota resistente. Assim como os homens daquela cidade. Algo me atraia. E mais me atraiu quando eu vi uma moça, usando aquele tipo de roupa. É claro que a minha primeira reação foi arregalar os olhos demonstrando nojo para os meus familiares, mas só quando a mesma senhorita se aproximou de mim foi que percebi que naquele lugar, aquele tipo de atitude (de vestimenta) não interferia tanto no que era a pessoa de fato. Eu gostei daquilo, sentia-me mais confortável em meio aquele povoado que não tinha a mínima noção de sutileza e elegância. Porque para mim a elegância nunca serviu de nada. Eu queria mesmo era andar descalça (ou de bota), soltar os cabelos e fumar tabaco, até mesmo beber cerveja. Coisa que eu não fazia, porque era deselegante e vulgar. Por isso sumir da Berlim era o meu maior sonho e meu maior pesadelo. Queria fazer coisas e me sentir livre de toda aquela lei nojenta, queria ser  como os outros, queria ter as mesmas coisas que eles e poderia viver no campo, apenas comendo o que eu plantasse se pudesse fazer o que eu queria fazer na metrópole e (OBVIAMENTE) não podia. Coisas citadas acima.
  Meus familiares cumprimentaram a tal moça, tão bonita que quase encheu meus olhos de lágrimas de inveja. Ou de admiração. Ainda não tinha encontrado o sentimento certo. Soube apenas que seu nome era Manuela Baumann. Agora lhe digo o que naquela mulher me atraiu tanto. Seus olhos eram tão verdes quanto os de Sabine e os cabelos, eram pretos. Pretos como o tabaco queimado. Ela era apenas alguns centímetros mais alta que eu e parecia mais saudável também. Digo isso pelo seu tipo físico, pois tinha certeza que ela dividia uma lata de sopa com oito irmãos. Não que eu fosse esnobe ou nada disso, eu só fui criada na metrópole e por mais estranho que isso pareça, os alemães odeiam as diferenças regionais e suas populações. Ou seja, odiamos as pessoas que não sejam do nosso mesmo chiqueiro. Pelo menos, em Berlim é assim. Ela tinha uma pose muito masculina, se não fosse pelo seus rosto bem desenhado e seus cabelos longos seria facilmente confundida com um homem. Se colocasse um chapéu também. Ela usava uma calça de flanela folgada e preta, com uma blusa de algodão azul escura e por cima um colete e um casaco de couro. E com botas de sabe-se lá que tecido muito gastas. Ela mascava algo. Fazia bem o papel de caipira. Só faltou estalar os dedos e levantar as sobrancelhas; Porém, ela tinha um sorriso doce e feminino e cílios compridos e sobrancelhas delineadas. Todos pretos. Ah mas que moça bonita. Me senti um nojo perto dela, com aquele vestido mesquinho e aquelas luvas inúteis de renda!! O pior mesmo, foi quando ela voltou a atenção para mim, mirando-me de cima embaixo.
  - Quem é esta aí? - perguntou a Sabine.
  - Minha prima de Berlim. Acabou de chegar. - respondeu Sabine, finalmente definindo nosso parentesco.
  - Hum. Ela se parece mesmo com uma alemã. - olhou-me friamente.

   Eu sou educada, mas não sou burra. E não sou do tipo que aguenta calada.
  - Por que faço bem o papel de alemã? Por acaso a senhorita não é alemã? - perguntei, com uma sobrancelha levantada.
  - Claro que sou. É que a senhorita tem cara de nojenta, assim como aqueles alemães idiotas de metrópoles. A senhorita é de metrópole não é?

  Eu senti a entonação no senhorita. Uma entonação bem cínica.
  - Sou sim, se não ouviu bem, e creio que seja porque seus ouvidos são surrados pelo trabalho no campo, eu sou de Berlim.
  E também não sou preconceituosa, mas sei ser cínica. Ora, você está me entendendo não está?
  Ela sorriu, mas não com cinismo. Eu até me senti culpada por ter sido tão grosseira. Mas claro que ela passaria no minuto seguinte.
 - Está vendo essas mãos? - ela mostrou-me as mãos calejadas - Elas trabalham no campo o dia todo. Sugiro que tire seus pompons de renda e comece a aprender a pegar numa inchada, porque a audição será dos problemas, o menor, depois que você ficar um mês por aqui.
  Eu queria mostrar para ela que não tinha medo, mas não consegui. Eu morria de medo. Era tão inútil quanto as minhas luvas, tanto que nem sabia fazer serviços de casa. Não sabia lavar uma louça. Imagine-me arando um solo, ou fazendo algum trabalho produtivo com as minhas mãos pequenas? Seria fracasso. Se dependessem de mim, passariam fome. E é claro que Manuela percebeu meu pânico e não tardou a cair na gargalhada. Era o objetivo dela aliás. Eu a coloquei no chão minutos atrás, agora, ela sapateava em cima de mim.
   - Não se preocupe. - ela sorria ainda - nós somos caipiras mas sabemos tratar as visitas bem. Não vai precisar arar o solo. Mas tenho certeza que seria inútil.
    E voltou a olhar Sabine e a trupe com lágrimas de risos nos olhos, e despediu-se. Quando estava quase sumindo virou-se ainda rindo e me acenou um tchauzinho. Eu, claro, não retribui.
    Fiquei irada, mas logo veio Sabine, acalmando-me.
   - Não fique envergonhada. - ela afagou meu ombro tenso - ela é assim com todos. É difícil no começo, mas você se acostuma com tudo isso.
  Eu queria perguntar várias coisa para ela, mas apenas olhei e não fiz nada. Fiquei calada. Chegamos na fazenda, e fui apresentada ao meu quarto. Passei dois dias recebendo comida no quarto, sem me levantar nem para tomar banho, chorando. Não tinha nem percebido que depois de dois dias, o frio já começava a passar e o sol nascia brilhando e sorrindo para o interior.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Parte 2. Johanna

   Eu estava dormindo. Passei a viagem toda dormindo depois que me debati sobre tudo que acontecia ao meu derredor. Lembro-me de ter sonhado com a guerra. O Terceito Reich encontrando minha família. Minha pobre família comunista. Isso sim, seria terrível. Onde estava meu espírito familiar naquele momento? Estava pensando só em mim e em como eles tinham me tirado de casa. Ah eu não deveria ter ido! Deveria ter lutado mais, persistido mais! Deixei-os sozinhos lá, em Berlim. Ah eu chorei ao lembrar-me disso. A vista embaçou e uma mecha loura caiu sobre os olhos. Eu passei as mãos umas nas outras para esquentar. Sabia que meus dedos pareciam estalactites pontudos e transparentes por baixo da luva inútil de renda que nada mais fazia a não ser enfeitar aqueles dedos magros e brancos. A manga comprida do vestido azul céu também não havia demonstrado serventia até o momento. Os sapatos, pobres sapatos de salto, foram os únicos que me deixaram orgulhosa. Pelo menos esquentavam algo junto com as meias finas "cor da pele" (branco esclerótica). Eu quis soltar meus longos cabelos louros. Deixá-los cair pelos ombros e me enrolar nele como se fosse um grande casaco de flanela amarela. Eu nem ao menos me lembrava de seu tipo, não sabia se era liso ou cacheado, ondulado ou encarapinhado. Sabia apenas que eram tão finos quanto a pele que cobria os músculos dos meus dedos agora, delicados como cristais. Porém, tive a coragem de arranca-los de dentro de suas luvas para limpar as lágrimas dos meus olhos. Não poderia chegar a rodoviária com o rosto marcado e com o pó de arroz borrado. Perder a ternura jamais. E quando eu cheguei lá, queria entrar no primeiro quarto que visse e morrer. Chorar e matar qualquer um. Claro que o arrependimento quase me matou, quando eu me deparei com o trio mais bonito de mulheres que eu vi na vida e um jovem muito bonito também. Apresentando minha nova família: 
    Camila, alta e branca (não tanto quanto eu), usava óculos e tinha cabelos louros compridos e brilhantes, soltos, porém, controlados. 
    Anne, morena com olhos grandes e azuis. Lábios carnudos e bem definidos. Muito branca e gordinha. 
    Sabine, com cabelos louros claríssimos (podia jurar que eram artificiais) e olhos pequeninos e tão verdes quanto a grama da Floresta Negra no verão, era para mim a mais bonita de todas. Com um rosto perfeito e um nariz arrebitado. 
    Albert, louro e com um rosto cansado. Forte e alto. Supostamente um soldado. 
  
   Elas me abraçaram como se fossemos parentes muitos distantes e muito ligados que não se viam há duzentos anos. Parentes distantes nós eramos de fato. Mas nem de longe eramos ligados. Eu nem sabia seus nomes, só depois das formalidades é claro. E nem me atrevi a perguntar o nome da cidade. Queria que fosse a última informação que eu teria do local. Pensar nas milhas de distâncias de casa me faria sofrer. O pior foi passar pelo mercado do povoado e ver todos eles muito felizes enquanto uma guerra se formava lá fora e muitos morriam. Muitos que não tinham nada com a história imposta pelo Terceiro Reich. Muitos judeus e muitos comunistas. Como a minha família. Não sabia se meus familiares sabiam de nosso seguimento político, então não entrei em detalhes. Não queria ser simpática nem puxar assunto, ou parecer sociável. Só queria que me odiassem e que me obrigassem a voltar para Berlim. Queria ir embora dali o mais rápido possível, para esquecer. Ou tentar esquecer. Nada seria pior que aquela apresentação ridícula da cidade e de seu povoado medíocre, ou dos melhores lugares para comprar pão, ou sapatos e todas essas coisas que estavam muito longe de ser importantes. Eu andaria descalça se me deixassem partir. Mas sentia que não me deixariam nem se eu matasse Sabine. Teria de aguentar afinal. Pensando em tudo isso, me arrependi em pensar que aquela passeata seria terrível. Terrível foi o vento e a brisa gelada que abraçaram minhas canelas, "protegidas" por meias cor de pele que de nada me serviam. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Parte 1 - Johanna.

   "Querida Jo, lhe escrevo para agradecer as horas maravilhosas que passei ao seu lado. Espero que dê tudo certo para você. Que Deus cuide da tua alma durante esse período constante de morte. Um grande abraço, de sua amiga, Lucy." 
   
   " Doce Jo, papai e eu lhe escrevemos para lhe dizer que a amamos. Temos prazer em ser pais de uma criatura tão abençoada como você. Obrigada por iluminar nossas vidas, sem você não seríamos nada. Deus cuidará de você enquanto estiver longe de casa. Volte viva, sua torta estará esperando e Joe também. Com carinho, mamãe e papai." 
  
   " Amada Jo, sinto muito não ter ficado perto de você. Meu batalhão é distante de casa e muitas coisas nos separam além da distância. Mesmo assim amarei você até o fim desta guerra. E até o fim de minha vida. Com amor e apelo, seu amado Joe." 
   
   " Maldita Jo, como foi embora sem se despedir sua Saumench? Jesus, Maria e José, não se pode ficar fora por um minuto neste país e as coisas já explodem? Por Cristo! Espero que você sofra os castigos do inferno por não ter se despedido. Mas espero que sofra quando voltar para casa, e viva. Acredito em você. Acabe com esta guerra. Lhe esperarei para dar um fim nessa farsa de noivado com Joe. Amo você Saumench. Com admiração, Monica." 


     Lucy, sinto sua falta. Suas palavras de carinho e suas paranoias religiosas seriam como pedras preciosas neste lugar. Acho que apanharia se tentasse oferecer à algum soldado qualquer palavra de solidariedade e amor. 
     Mamãe e papai, amo vocês com toda a força da minha existência. Obrigada. E mamãe, não me fale mais de comida em suas cartas. Eu passo fome e já lhe disse isso. 
     Caro Joe, é mesmo uma pena que tenhamos ficados afastados. Precisamos muito conversar. Lhe aguardo, até o fim da guerra. 
      Oh querida Mo, me perdoe. Me perdoe. Não me esqueci, apenas me atrasei. Sinto muito por não ter me despedido. Mesmo assim, guardarei nossa última lembrança comendo um piquenique nojento em algum campo imundo por aí, aonde foi mesmo? Sem lágrimas, sem lágrimas. Lhe amo! E voltarei. 

            


            Sinto-me perdida. Nunca estive tão só. Na verdade já estive muito mais só do que isso, mas creio que não poderia ter uma companhia agradável com qualquer passageiro desse trem. Parece que estou indo para um banho de lama, no lixão. E eu estou limpa. E parece que todos sabem que eu estou indo sujar-me, mas estão orgulhosos. Me olham com satisfação até. Com orgulho. Um senhor caridoso e (creio eu) desinformado bateu com a mão esquerda em meu ombro e disse "Você é um orgulho para a pátria". E minha reação, imagine, foi a pior possível. Eu nada lhe disse. Apenas observei-o, com toda aquela conversa fiada, com toda aquela bosta. Que orgulho que nada, orgulho são os doutores, que salvam vidas. Eu estou apenas fugindo da guerra. Me esconder dos soviéticos que meu pai insistia em dizer que chegariam. Eu nunca tive nada contra a URSS. Eram apenas um país bem grande e bem armado. Medo? Com certeza. Só mesmo um louco não teria. Um louco com um bigode quadrado. Não tinha nada contra os soviéticos também. Fui vizinha de uns, anos atrás. Eram boas pessoas. Sempre nos levavam comida em feriados especiais e sempre eram muito hospitaleiros e festivos. Empanturravam-se de carne e vodka. E eu sendo eu, adorava. Vivia com eles. Mas agora, tudo havia mudado. Os judeus, coitadinhos. Nem sabia o que acontecia direito com eles. Apenas sabia que haviam alguns judeus em meu bairro e eles foram levados embora pelos soldados alemães. Disseram que foram lhes espancando pela rua, viram até sangue caindo a baldes de seus rostos cinzentos. Sabia só porque estavam cinzentos. Eles, os alemães. Ou eu. A nação. Os poderosos. E provavelmente (é claro!) o Terceiro Reich haviam decretado que os judeus não poderiam se desvencilhar de mantimentos alemães, ou seja, não poderiam comer da comida alemã. Uma completa babaquice, pensei comigo certo dia. É claro que existiam judeus alemães. Então, isso estaria errado não estaria? Ora bolas! 
            Até que eles foram levados embora dentro de um camburão da mesma cor que suas faces magras e fracas. Todos os judeus que eu conhecia. E eu? Bom eu não era judia, então fiquei. 
            Quem sou eu aliás? Deixe-me dizer: meu nome é Johanna Ackerman e eu tenho 25 anos. Estou dentro de um trem, por covardia de minha família. Eu sou a filha mais nova e decidiram que me colocariam no primeiro transporte que me levasse para longe de Berlim. Capital Alemã. E para que tudo isso? Está havendo uma guerra lá fora, uma guerra de que eu não me orgulho. E não me orgulho por ser parte do país que a instituiu. Lembra que lhes disse que não tinha nada contra os soviéticos? Pois bem, eu não tinha. Muito pelo contrário. Tinha muito a favor. Era comunista. Abraçava a ideia porque para mim, era justa. Os cidadãos merecem uma boa vida. E minha família, também era comunista. Por isso me encaixotaram e chutaram-me para fora de casa. Diziam eles que era por proteção. E eu sei o porquê. Vivíamos na Alemanha Nazista. 1939. Hitler chutara o pau da barraca. Jogou fora o Tratado de Versalhes. O que condizia, ir contra as comandos norte-americanos. Os poderosos. Guerra na certa. E aqui estou eu. Morrendo de medo e tremendo porque está tão frio que até as células dos meus ossos tremem. Acho hilária essa expressão, porque se estivéssemos em constante vibração e tremor assim, nosso corpo pegaria fogo, mas não, estou é com frio. E sabe-se lá Deus para onde estou indo. Nem isso aqueles velhos me disseram. Apenas sei que é para casa de uma tia que nunca conheci, irmã de meu velho pai. E é no interior da Alemanha. O que assegurava uma sensação de conforto aos meus pais. Tolice completa. Se quisessem tacar bombas lá, tacariam. Mas enfim, eu sou loura. Muito loura e de pele muito branca. De olhos azuis acinzentados e lábios avermelhados. Digo que tenho vergonha da minha aparência, um típico ariano, a raça superior. Garanto-lhes que nada de superior há em meus olhos azuis, nada me adicionam. A não ser uma arma de tecnologia alemã bem longe da minha cabeça, aliás, eles não fazem perguntas sobre código genético a alemães louros de olhos azuis. Então, não duvidam da minha "deslealdade" e podridão à pátria. Pena tinha eu, de uma velha amiga minha, que possuía cabelos louros escuros e olhos castanhos e que teve de passar por um processo de recolhimento de genes e provar ao estado que era alemã, para poder comprar comida. Sua avó, já idosa, morreu de anemia por causa do dinheiro e de alimentos que o estado lhe obrigou a não ter. E eu, loura e pálida, dos olhos azuis e vestidos até os joelhos de tecido fino e cor-de-rosa fazia o papel bonito da jovem cidadã perfeita ariana, que meu país gostaria que passasse. Meus cabelos eram compridos, mas ficavam sempre presos. Minha mãe nunca deixara eu soltá-los. Eu era de estatura média, dentro dos padrões alemães e magra como uma vareta. Com pernas esguias e braços finos e delicados. Enjoativamente comum. Não sabia muito sobre a guerra, só sabia que ela estava ali, nos portões de casa. E tinha medo de falar sobre ela. Parecia que a morte sondava todos que lhes tocasse o nome. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

1945.

   Ele a olhava. Com os olhos castanhos perfurando os olhos negros dela. E aquele momento foi o mais próximo que ela chegou de dizer "Eu amo você".  Mas não o fez. Ela não tinha certeza ainda, não sabia se seria verdadeiro. E eles haviam feito uma promessa, nunca mentiriam um para o outro. E aquilo, era uma regra. Era a prova mais bonita que havia relacionamento entre os dois. E ela sempre soube, que fora o mais sincera possível com ele, ou seja, nunca mentiu. Pelo menos, não depois de ter feito a promessa. Ela tinha as mãos dele pressionadas contra as dela, eles apertavam as mãos, como se fosse um abraço. Talvez eles já tivessem passado por aquela "separação" em outra vida. Eles sabiam que não estavam separados, porque não estavam teoricamente. Estavam um do lado outro, mas estavam separados pelas circunstâncias. Ele poderia morrer, ela poderia morrer.
  - Eu só quero te dizer que você foi... - ela dizia, mas ele a interrompeu.
  - Não quero ouvir isso agora - ele sorria para ela - Isso não é um tipo de despedida. Guarde o que você tem para me falar para o fim da guerra.
  E ela se calou, contraditória. Ela queria dizer, mas não disse. Ficou ali parada, olhando para ele, como se suplicasse com os olhos para que ele a deixasse falar, ela precisava falar. Mas nada aconteceu. Os dois foram chamados para tomar seus postos. Estavam a trinta metros um do outro, mas ainda sim trocaram sorrisos e um "boa sorte", nenhum tipo de "amo você" foi dito, por parte dos dois. Ela se arrependeria alguns momentos depois.
   O tiroteio começou, eles seriam reduzidos, pensou ela. Não restaria ninguém. Só podia. Era a pior batalha de sua vida, a mais sofrida. Mas ela estava enganada. Nem de longe aquilo seria o pior momento da sua vida. Nem se compararia. E eu posso lhe adiantar, que ela preferiria passar por aquilo mais 15 milhões de vezes, se pudesse impedir o que houve. Mas não pôde. Ela o viu morto. Se engasgando com o sangue. Sofrendo e morrendo de dor. Com Aleksei ao seu lado, injetando uma quantidade de morfina que mataria uma baleia azul.  Ela correu. Quebrando todas as regras de segurança, jogando para os ares toda a estratégia.
   - VOLTE AQUI! - gritou Han. - VOCÊ VAI ESTRAGAR TUDO, ELE JÁ ESTÁ MORTO!
   - ELE É TUDO! GRAÇAS A ELE ESTAMOS AQUI! - ela disse, já em pé e correndo, em meio a lágrimas de desespero. 
  Quando chegou, viu o rosto encantador coberto de sangue e terra e se contorcendo de dor. Ele ainda não estava morto.
   - Volte para lá Alex - disse Aleksei. - eu cuido dele.
   - Cale a boca Aleksei.
   Desesperadamente ela quis dar a sua vida em troca da dele, fez milhares de orações em troca da vida, inventou palavras, pediu com tanto força que era impossível Deus não ouvi-lá. Mas nada aconteceu, e ela o viu morrer. Bem em frente aos seus olhos, ela viu tudo o que mais amou fechando os olhos e se despedaçando. Ela quase pode enxergar a alma dele saindo para fora do corpo. Mas ela agarrou-se a ele, implorando para que vivesse.
   - Por favor, só mais um pouco! Por favor, olhe para mim, olhe aqui! EI, eu estou aqui! Por favor me escute! Eu te amo! Eu amo você, por favor fique aqui! Por favor Frans, não vá! Eu te amo, te amo mais que tudo! Por favor...
  E chorou.