Já contei como foi insuportável andar pela cidade interiorana? Acho que sim, mas devo lhe acrescentar, que tudo o que você deve ter pensando não é tão ruim quanto imagina. É bem pior. Além de ter sido ridículo, pois todas as moças usavam algo nos pés mais parecido com galochas do que com o sapatinho de salto que em meu pé estava descansado confortavelmente. E os moços, todos com roupas surradas de trabalho no campo. Lembro-me especialmente dos casacos de couro que eles usavam e que em muito me atraíram. Eu sempre quis usar casaco de couro por cima de uma blusa de algodão, enfiada numa calça de flanela e com os com as pernas cobertas até os tornozelos por uma bota resistente. Assim como os homens daquela cidade. Algo me atraia. E mais me atraiu quando eu vi uma moça, usando aquele tipo de roupa. É claro que a minha primeira reação foi arregalar os olhos demonstrando nojo para os meus familiares, mas só quando a mesma senhorita se aproximou de mim foi que percebi que naquele lugar, aquele tipo de atitude (de vestimenta) não interferia tanto no que era a pessoa de fato. Eu gostei daquilo, sentia-me mais confortável em meio aquele povoado que não tinha a mínima noção de sutileza e elegância. Porque para mim a elegância nunca serviu de nada. Eu queria mesmo era andar descalça (ou de bota), soltar os cabelos e fumar tabaco, até mesmo beber cerveja. Coisa que eu não fazia, porque era deselegante e vulgar. Por isso sumir da Berlim era o meu maior sonho e meu maior pesadelo. Queria fazer coisas e me sentir livre de toda aquela lei nojenta, queria ser como os outros, queria ter as mesmas coisas que eles e poderia viver no campo, apenas comendo o que eu plantasse se pudesse fazer o que eu queria fazer na metrópole e (OBVIAMENTE) não podia. Coisas citadas acima.
Meus familiares cumprimentaram a tal moça, tão bonita que quase encheu meus olhos de lágrimas de inveja. Ou de admiração. Ainda não tinha encontrado o sentimento certo. Soube apenas que seu nome era Manuela Baumann. Agora lhe digo o que naquela mulher me atraiu tanto. Seus olhos eram tão verdes quanto os de Sabine e os cabelos, eram pretos. Pretos como o tabaco queimado. Ela era apenas alguns centímetros mais alta que eu e parecia mais saudável também. Digo isso pelo seu tipo físico, pois tinha certeza que ela dividia uma lata de sopa com oito irmãos. Não que eu fosse esnobe ou nada disso, eu só fui criada na metrópole e por mais estranho que isso pareça, os alemães odeiam as diferenças regionais e suas populações. Ou seja, odiamos as pessoas que não sejam do nosso mesmo chiqueiro. Pelo menos, em Berlim é assim. Ela tinha uma pose muito masculina, se não fosse pelo seus rosto bem desenhado e seus cabelos longos seria facilmente confundida com um homem. Se colocasse um chapéu também. Ela usava uma calça de flanela folgada e preta, com uma blusa de algodão azul escura e por cima um colete e um casaco de couro. E com botas de sabe-se lá que tecido muito gastas. Ela mascava algo. Fazia bem o papel de caipira. Só faltou estalar os dedos e levantar as sobrancelhas; Porém, ela tinha um sorriso doce e feminino e cílios compridos e sobrancelhas delineadas. Todos pretos. Ah mas que moça bonita. Me senti um nojo perto dela, com aquele vestido mesquinho e aquelas luvas inúteis de renda!! O pior mesmo, foi quando ela voltou a atenção para mim, mirando-me de cima embaixo.
- Quem é esta aí? - perguntou a Sabine.
- Minha prima de Berlim. Acabou de chegar. - respondeu Sabine, finalmente definindo nosso parentesco.
- Hum. Ela se parece mesmo com uma alemã. - olhou-me friamente.
Eu sou educada, mas não sou burra. E não sou do tipo que aguenta calada.
- Por que faço bem o papel de alemã? Por acaso a senhorita não é alemã? - perguntei, com uma sobrancelha levantada.
- Claro que sou. É que a senhorita tem cara de nojenta, assim como aqueles alemães idiotas de metrópoles. A senhorita é de metrópole não é?
Eu senti a entonação no senhorita. Uma entonação bem cínica.
- Sou sim, se não ouviu bem, e creio que seja porque seus ouvidos são surrados pelo trabalho no campo, eu sou de Berlim.
E também não sou preconceituosa, mas sei ser cínica. Ora, você está me entendendo não está?
Ela sorriu, mas não com cinismo. Eu até me senti culpada por ter sido tão grosseira. Mas claro que ela passaria no minuto seguinte.
- Está vendo essas mãos? - ela mostrou-me as mãos calejadas - Elas trabalham no campo o dia todo. Sugiro que tire seus pompons de renda e comece a aprender a pegar numa inchada, porque a audição será dos problemas, o menor, depois que você ficar um mês por aqui.
Eu queria mostrar para ela que não tinha medo, mas não consegui. Eu morria de medo. Era tão inútil quanto as minhas luvas, tanto que nem sabia fazer serviços de casa. Não sabia lavar uma louça. Imagine-me arando um solo, ou fazendo algum trabalho produtivo com as minhas mãos pequenas? Seria fracasso. Se dependessem de mim, passariam fome. E é claro que Manuela percebeu meu pânico e não tardou a cair na gargalhada. Era o objetivo dela aliás. Eu a coloquei no chão minutos atrás, agora, ela sapateava em cima de mim.
- Não se preocupe. - ela sorria ainda - nós somos caipiras mas sabemos tratar as visitas bem. Não vai precisar arar o solo. Mas tenho certeza que seria inútil.
E voltou a olhar Sabine e a trupe com lágrimas de risos nos olhos, e despediu-se. Quando estava quase sumindo virou-se ainda rindo e me acenou um tchauzinho. Eu, claro, não retribui.
Fiquei irada, mas logo veio Sabine, acalmando-me.
- Não fique envergonhada. - ela afagou meu ombro tenso - ela é assim com todos. É difícil no começo, mas você se acostuma com tudo isso.
Eu queria perguntar várias coisa para ela, mas apenas olhei e não fiz nada. Fiquei calada. Chegamos na fazenda, e fui apresentada ao meu quarto. Passei dois dias recebendo comida no quarto, sem me levantar nem para tomar banho, chorando. Não tinha nem percebido que depois de dois dias, o frio já começava a passar e o sol nascia brilhando e sorrindo para o interior.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Parte 2. Johanna
Eu estava dormindo. Passei a viagem toda dormindo depois que me debati sobre tudo que acontecia ao meu derredor. Lembro-me de ter sonhado com a guerra. O Terceito Reich encontrando minha família. Minha pobre família comunista. Isso sim, seria terrível. Onde estava meu espírito familiar naquele momento? Estava pensando só em mim e em como eles tinham me tirado de casa. Ah eu não deveria ter ido! Deveria ter lutado mais, persistido mais! Deixei-os sozinhos lá, em Berlim. Ah eu chorei ao lembrar-me disso. A vista embaçou e uma mecha loura caiu sobre os olhos. Eu passei as mãos umas nas outras para esquentar. Sabia que meus dedos pareciam estalactites pontudos e transparentes por baixo da luva inútil de renda que nada mais fazia a não ser enfeitar aqueles dedos magros e brancos. A manga comprida do vestido azul céu também não havia demonstrado serventia até o momento. Os sapatos, pobres sapatos de salto, foram os únicos que me deixaram orgulhosa. Pelo menos esquentavam algo junto com as meias finas "cor da pele" (branco esclerótica). Eu quis soltar meus longos cabelos louros. Deixá-los cair pelos ombros e me enrolar nele como se fosse um grande casaco de flanela amarela. Eu nem ao menos me lembrava de seu tipo, não sabia se era liso ou cacheado, ondulado ou encarapinhado. Sabia apenas que eram tão finos quanto a pele que cobria os músculos dos meus dedos agora, delicados como cristais. Porém, tive a coragem de arranca-los de dentro de suas luvas para limpar as lágrimas dos meus olhos. Não poderia chegar a rodoviária com o rosto marcado e com o pó de arroz borrado. Perder a ternura jamais. E quando eu cheguei lá, queria entrar no primeiro quarto que visse e morrer. Chorar e matar qualquer um. Claro que o arrependimento quase me matou, quando eu me deparei com o trio mais bonito de mulheres que eu vi na vida e um jovem muito bonito também. Apresentando minha nova família:
Camila, alta e branca (não tanto quanto eu), usava óculos e tinha cabelos louros compridos e brilhantes, soltos, porém, controlados.
Anne, morena com olhos grandes e azuis. Lábios carnudos e bem definidos. Muito branca e gordinha.
Sabine, com cabelos louros claríssimos (podia jurar que eram artificiais) e olhos pequeninos e tão verdes quanto a grama da Floresta Negra no verão, era para mim a mais bonita de todas. Com um rosto perfeito e um nariz arrebitado.
Albert, louro e com um rosto cansado. Forte e alto. Supostamente um soldado.
Elas me abraçaram como se fossemos parentes muitos distantes e muito ligados que não se viam há duzentos anos. Parentes distantes nós eramos de fato. Mas nem de longe eramos ligados. Eu nem sabia seus nomes, só depois das formalidades é claro. E nem me atrevi a perguntar o nome da cidade. Queria que fosse a última informação que eu teria do local. Pensar nas milhas de distâncias de casa me faria sofrer. O pior foi passar pelo mercado do povoado e ver todos eles muito felizes enquanto uma guerra se formava lá fora e muitos morriam. Muitos que não tinham nada com a história imposta pelo Terceiro Reich. Muitos judeus e muitos comunistas. Como a minha família. Não sabia se meus familiares sabiam de nosso seguimento político, então não entrei em detalhes. Não queria ser simpática nem puxar assunto, ou parecer sociável. Só queria que me odiassem e que me obrigassem a voltar para Berlim. Queria ir embora dali o mais rápido possível, para esquecer. Ou tentar esquecer. Nada seria pior que aquela apresentação ridícula da cidade e de seu povoado medíocre, ou dos melhores lugares para comprar pão, ou sapatos e todas essas coisas que estavam muito longe de ser importantes. Eu andaria descalça se me deixassem partir. Mas sentia que não me deixariam nem se eu matasse Sabine. Teria de aguentar afinal. Pensando em tudo isso, me arrependi em pensar que aquela passeata seria terrível. Terrível foi o vento e a brisa gelada que abraçaram minhas canelas, "protegidas" por meias cor de pele que de nada me serviam.
Camila, alta e branca (não tanto quanto eu), usava óculos e tinha cabelos louros compridos e brilhantes, soltos, porém, controlados.
Anne, morena com olhos grandes e azuis. Lábios carnudos e bem definidos. Muito branca e gordinha.
Sabine, com cabelos louros claríssimos (podia jurar que eram artificiais) e olhos pequeninos e tão verdes quanto a grama da Floresta Negra no verão, era para mim a mais bonita de todas. Com um rosto perfeito e um nariz arrebitado.
Albert, louro e com um rosto cansado. Forte e alto. Supostamente um soldado.
Elas me abraçaram como se fossemos parentes muitos distantes e muito ligados que não se viam há duzentos anos. Parentes distantes nós eramos de fato. Mas nem de longe eramos ligados. Eu nem sabia seus nomes, só depois das formalidades é claro. E nem me atrevi a perguntar o nome da cidade. Queria que fosse a última informação que eu teria do local. Pensar nas milhas de distâncias de casa me faria sofrer. O pior foi passar pelo mercado do povoado e ver todos eles muito felizes enquanto uma guerra se formava lá fora e muitos morriam. Muitos que não tinham nada com a história imposta pelo Terceiro Reich. Muitos judeus e muitos comunistas. Como a minha família. Não sabia se meus familiares sabiam de nosso seguimento político, então não entrei em detalhes. Não queria ser simpática nem puxar assunto, ou parecer sociável. Só queria que me odiassem e que me obrigassem a voltar para Berlim. Queria ir embora dali o mais rápido possível, para esquecer. Ou tentar esquecer. Nada seria pior que aquela apresentação ridícula da cidade e de seu povoado medíocre, ou dos melhores lugares para comprar pão, ou sapatos e todas essas coisas que estavam muito longe de ser importantes. Eu andaria descalça se me deixassem partir. Mas sentia que não me deixariam nem se eu matasse Sabine. Teria de aguentar afinal. Pensando em tudo isso, me arrependi em pensar que aquela passeata seria terrível. Terrível foi o vento e a brisa gelada que abraçaram minhas canelas, "protegidas" por meias cor de pele que de nada me serviam.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Parte 1 - Johanna.
"Querida Jo, lhe escrevo para agradecer as horas maravilhosas que passei ao seu lado. Espero que dê tudo certo para você. Que Deus cuide da tua alma durante esse período constante de morte. Um grande abraço, de sua amiga, Lucy."
" Doce Jo, papai e eu lhe escrevemos para lhe dizer que a amamos. Temos prazer em ser pais de uma criatura tão abençoada como você. Obrigada por iluminar nossas vidas, sem você não seríamos nada. Deus cuidará de você enquanto estiver longe de casa. Volte viva, sua torta estará esperando e Joe também. Com carinho, mamãe e papai."
" Amada Jo, sinto muito não ter ficado perto de você. Meu batalhão é distante de casa e muitas coisas nos separam além da distância. Mesmo assim amarei você até o fim desta guerra. E até o fim de minha vida. Com amor e apelo, seu amado Joe."
" Maldita Jo, como foi embora sem se despedir sua Saumench? Jesus, Maria e José, não se pode ficar fora por um minuto neste país e as coisas já explodem? Por Cristo! Espero que você sofra os castigos do inferno por não ter se despedido. Mas espero que sofra quando voltar para casa, e viva. Acredito em você. Acabe com esta guerra. Lhe esperarei para dar um fim nessa farsa de noivado com Joe. Amo você Saumench. Com admiração, Monica."
Lucy, sinto sua falta. Suas palavras de carinho e suas paranoias religiosas seriam como pedras preciosas neste lugar. Acho que apanharia se tentasse oferecer à algum soldado qualquer palavra de solidariedade e amor.
Mamãe e papai, amo vocês com toda a força da minha existência. Obrigada. E mamãe, não me fale mais de comida em suas cartas. Eu passo fome e já lhe disse isso.
Caro Joe, é mesmo uma pena que tenhamos ficados afastados. Precisamos muito conversar. Lhe aguardo, até o fim da guerra.
Oh querida Mo, me perdoe. Me perdoe. Não me esqueci, apenas me atrasei. Sinto muito por não ter me despedido. Mesmo assim, guardarei nossa última lembrança comendo um piquenique nojento em algum campo imundo por aí, aonde foi mesmo? Sem lágrimas, sem lágrimas. Lhe amo! E voltarei.
Sinto-me perdida. Nunca estive tão só. Na verdade já estive muito mais só do que isso, mas creio que não poderia ter uma companhia agradável com qualquer passageiro desse trem. Parece que estou indo para um banho de lama, no lixão. E eu estou limpa. E parece que todos sabem que eu estou indo sujar-me, mas estão orgulhosos. Me olham com satisfação até. Com orgulho. Um senhor caridoso e (creio eu) desinformado bateu com a mão esquerda em meu ombro e disse "Você é um orgulho para a pátria". E minha reação, imagine, foi a pior possível. Eu nada lhe disse. Apenas observei-o, com toda aquela conversa fiada, com toda aquela bosta. Que orgulho que nada, orgulho são os doutores, que salvam vidas. Eu estou apenas fugindo da guerra. Me esconder dos soviéticos que meu pai insistia em dizer que chegariam. Eu nunca tive nada contra a URSS. Eram apenas um país bem grande e bem armado. Medo? Com certeza. Só mesmo um louco não teria. Um louco com um bigode quadrado. Não tinha nada contra os soviéticos também. Fui vizinha de uns, anos atrás. Eram boas pessoas. Sempre nos levavam comida em feriados especiais e sempre eram muito hospitaleiros e festivos. Empanturravam-se de carne e vodka. E eu sendo eu, adorava. Vivia com eles. Mas agora, tudo havia mudado. Os judeus, coitadinhos. Nem sabia o que acontecia direito com eles. Apenas sabia que haviam alguns judeus em meu bairro e eles foram levados embora pelos soldados alemães. Disseram que foram lhes espancando pela rua, viram até sangue caindo a baldes de seus rostos cinzentos. Sabia só porque estavam cinzentos. Eles, os alemães. Ou eu. A nação. Os poderosos. E provavelmente (é claro!) o Terceiro Reich haviam decretado que os judeus não poderiam se desvencilhar de mantimentos alemães, ou seja, não poderiam comer da comida alemã. Uma completa babaquice, pensei comigo certo dia. É claro que existiam judeus alemães. Então, isso estaria errado não estaria? Ora bolas!
Até que eles foram levados embora dentro de um camburão da mesma cor que suas faces magras e fracas. Todos os judeus que eu conhecia. E eu? Bom eu não era judia, então fiquei.
Quem sou eu aliás? Deixe-me dizer: meu nome é Johanna Ackerman e eu tenho 25 anos. Estou dentro de um trem, por covardia de minha família. Eu sou a filha mais nova e decidiram que me colocariam no primeiro transporte que me levasse para longe de Berlim. Capital Alemã. E para que tudo isso? Está havendo uma guerra lá fora, uma guerra de que eu não me orgulho. E não me orgulho por ser parte do país que a instituiu. Lembra que lhes disse que não tinha nada contra os soviéticos? Pois bem, eu não tinha. Muito pelo contrário. Tinha muito a favor. Era comunista. Abraçava a ideia porque para mim, era justa. Os cidadãos merecem uma boa vida. E minha família, também era comunista. Por isso me encaixotaram e chutaram-me para fora de casa. Diziam eles que era por proteção. E eu sei o porquê. Vivíamos na Alemanha Nazista. 1939. Hitler chutara o pau da barraca. Jogou fora o Tratado de Versalhes. O que condizia, ir contra as comandos norte-americanos. Os poderosos. Guerra na certa. E aqui estou eu. Morrendo de medo e tremendo porque está tão frio que até as células dos meus ossos tremem. Acho hilária essa expressão, porque se estivéssemos em constante vibração e tremor assim, nosso corpo pegaria fogo, mas não, estou é com frio. E sabe-se lá Deus para onde estou indo. Nem isso aqueles velhos me disseram. Apenas sei que é para casa de uma tia que nunca conheci, irmã de meu velho pai. E é no interior da Alemanha. O que assegurava uma sensação de conforto aos meus pais. Tolice completa. Se quisessem tacar bombas lá, tacariam. Mas enfim, eu sou loura. Muito loura e de pele muito branca. De olhos azuis acinzentados e lábios avermelhados. Digo que tenho vergonha da minha aparência, um típico ariano, a raça superior. Garanto-lhes que nada de superior há em meus olhos azuis, nada me adicionam. A não ser uma arma de tecnologia alemã bem longe da minha cabeça, aliás, eles não fazem perguntas sobre código genético a alemães louros de olhos azuis. Então, não duvidam da minha "deslealdade" e podridão à pátria. Pena tinha eu, de uma velha amiga minha, que possuía cabelos louros escuros e olhos castanhos e que teve de passar por um processo de recolhimento de genes e provar ao estado que era alemã, para poder comprar comida. Sua avó, já idosa, morreu de anemia por causa do dinheiro e de alimentos que o estado lhe obrigou a não ter. E eu, loura e pálida, dos olhos azuis e vestidos até os joelhos de tecido fino e cor-de-rosa fazia o papel bonito da jovem cidadã perfeita ariana, que meu país gostaria que passasse. Meus cabelos eram compridos, mas ficavam sempre presos. Minha mãe nunca deixara eu soltá-los. Eu era de estatura média, dentro dos padrões alemães e magra como uma vareta. Com pernas esguias e braços finos e delicados. Enjoativamente comum. Não sabia muito sobre a guerra, só sabia que ela estava ali, nos portões de casa. E tinha medo de falar sobre ela. Parecia que a morte sondava todos que lhes tocasse o nome.
" Doce Jo, papai e eu lhe escrevemos para lhe dizer que a amamos. Temos prazer em ser pais de uma criatura tão abençoada como você. Obrigada por iluminar nossas vidas, sem você não seríamos nada. Deus cuidará de você enquanto estiver longe de casa. Volte viva, sua torta estará esperando e Joe também. Com carinho, mamãe e papai."
" Amada Jo, sinto muito não ter ficado perto de você. Meu batalhão é distante de casa e muitas coisas nos separam além da distância. Mesmo assim amarei você até o fim desta guerra. E até o fim de minha vida. Com amor e apelo, seu amado Joe."
" Maldita Jo, como foi embora sem se despedir sua Saumench? Jesus, Maria e José, não se pode ficar fora por um minuto neste país e as coisas já explodem? Por Cristo! Espero que você sofra os castigos do inferno por não ter se despedido. Mas espero que sofra quando voltar para casa, e viva. Acredito em você. Acabe com esta guerra. Lhe esperarei para dar um fim nessa farsa de noivado com Joe. Amo você Saumench. Com admiração, Monica."
Lucy, sinto sua falta. Suas palavras de carinho e suas paranoias religiosas seriam como pedras preciosas neste lugar. Acho que apanharia se tentasse oferecer à algum soldado qualquer palavra de solidariedade e amor.
Mamãe e papai, amo vocês com toda a força da minha existência. Obrigada. E mamãe, não me fale mais de comida em suas cartas. Eu passo fome e já lhe disse isso.
Caro Joe, é mesmo uma pena que tenhamos ficados afastados. Precisamos muito conversar. Lhe aguardo, até o fim da guerra.
Oh querida Mo, me perdoe. Me perdoe. Não me esqueci, apenas me atrasei. Sinto muito por não ter me despedido. Mesmo assim, guardarei nossa última lembrança comendo um piquenique nojento em algum campo imundo por aí, aonde foi mesmo? Sem lágrimas, sem lágrimas. Lhe amo! E voltarei.
Sinto-me perdida. Nunca estive tão só. Na verdade já estive muito mais só do que isso, mas creio que não poderia ter uma companhia agradável com qualquer passageiro desse trem. Parece que estou indo para um banho de lama, no lixão. E eu estou limpa. E parece que todos sabem que eu estou indo sujar-me, mas estão orgulhosos. Me olham com satisfação até. Com orgulho. Um senhor caridoso e (creio eu) desinformado bateu com a mão esquerda em meu ombro e disse "Você é um orgulho para a pátria". E minha reação, imagine, foi a pior possível. Eu nada lhe disse. Apenas observei-o, com toda aquela conversa fiada, com toda aquela bosta. Que orgulho que nada, orgulho são os doutores, que salvam vidas. Eu estou apenas fugindo da guerra. Me esconder dos soviéticos que meu pai insistia em dizer que chegariam. Eu nunca tive nada contra a URSS. Eram apenas um país bem grande e bem armado. Medo? Com certeza. Só mesmo um louco não teria. Um louco com um bigode quadrado. Não tinha nada contra os soviéticos também. Fui vizinha de uns, anos atrás. Eram boas pessoas. Sempre nos levavam comida em feriados especiais e sempre eram muito hospitaleiros e festivos. Empanturravam-se de carne e vodka. E eu sendo eu, adorava. Vivia com eles. Mas agora, tudo havia mudado. Os judeus, coitadinhos. Nem sabia o que acontecia direito com eles. Apenas sabia que haviam alguns judeus em meu bairro e eles foram levados embora pelos soldados alemães. Disseram que foram lhes espancando pela rua, viram até sangue caindo a baldes de seus rostos cinzentos. Sabia só porque estavam cinzentos. Eles, os alemães. Ou eu. A nação. Os poderosos. E provavelmente (é claro!) o Terceiro Reich haviam decretado que os judeus não poderiam se desvencilhar de mantimentos alemães, ou seja, não poderiam comer da comida alemã. Uma completa babaquice, pensei comigo certo dia. É claro que existiam judeus alemães. Então, isso estaria errado não estaria? Ora bolas!
Até que eles foram levados embora dentro de um camburão da mesma cor que suas faces magras e fracas. Todos os judeus que eu conhecia. E eu? Bom eu não era judia, então fiquei.
Quem sou eu aliás? Deixe-me dizer: meu nome é Johanna Ackerman e eu tenho 25 anos. Estou dentro de um trem, por covardia de minha família. Eu sou a filha mais nova e decidiram que me colocariam no primeiro transporte que me levasse para longe de Berlim. Capital Alemã. E para que tudo isso? Está havendo uma guerra lá fora, uma guerra de que eu não me orgulho. E não me orgulho por ser parte do país que a instituiu. Lembra que lhes disse que não tinha nada contra os soviéticos? Pois bem, eu não tinha. Muito pelo contrário. Tinha muito a favor. Era comunista. Abraçava a ideia porque para mim, era justa. Os cidadãos merecem uma boa vida. E minha família, também era comunista. Por isso me encaixotaram e chutaram-me para fora de casa. Diziam eles que era por proteção. E eu sei o porquê. Vivíamos na Alemanha Nazista. 1939. Hitler chutara o pau da barraca. Jogou fora o Tratado de Versalhes. O que condizia, ir contra as comandos norte-americanos. Os poderosos. Guerra na certa. E aqui estou eu. Morrendo de medo e tremendo porque está tão frio que até as células dos meus ossos tremem. Acho hilária essa expressão, porque se estivéssemos em constante vibração e tremor assim, nosso corpo pegaria fogo, mas não, estou é com frio. E sabe-se lá Deus para onde estou indo. Nem isso aqueles velhos me disseram. Apenas sei que é para casa de uma tia que nunca conheci, irmã de meu velho pai. E é no interior da Alemanha. O que assegurava uma sensação de conforto aos meus pais. Tolice completa. Se quisessem tacar bombas lá, tacariam. Mas enfim, eu sou loura. Muito loura e de pele muito branca. De olhos azuis acinzentados e lábios avermelhados. Digo que tenho vergonha da minha aparência, um típico ariano, a raça superior. Garanto-lhes que nada de superior há em meus olhos azuis, nada me adicionam. A não ser uma arma de tecnologia alemã bem longe da minha cabeça, aliás, eles não fazem perguntas sobre código genético a alemães louros de olhos azuis. Então, não duvidam da minha "deslealdade" e podridão à pátria. Pena tinha eu, de uma velha amiga minha, que possuía cabelos louros escuros e olhos castanhos e que teve de passar por um processo de recolhimento de genes e provar ao estado que era alemã, para poder comprar comida. Sua avó, já idosa, morreu de anemia por causa do dinheiro e de alimentos que o estado lhe obrigou a não ter. E eu, loura e pálida, dos olhos azuis e vestidos até os joelhos de tecido fino e cor-de-rosa fazia o papel bonito da jovem cidadã perfeita ariana, que meu país gostaria que passasse. Meus cabelos eram compridos, mas ficavam sempre presos. Minha mãe nunca deixara eu soltá-los. Eu era de estatura média, dentro dos padrões alemães e magra como uma vareta. Com pernas esguias e braços finos e delicados. Enjoativamente comum. Não sabia muito sobre a guerra, só sabia que ela estava ali, nos portões de casa. E tinha medo de falar sobre ela. Parecia que a morte sondava todos que lhes tocasse o nome.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
1945.
Ele a olhava. Com os olhos castanhos perfurando os olhos negros dela. E aquele momento foi o mais próximo que ela chegou de dizer "Eu amo você". Mas não o fez. Ela não tinha certeza ainda, não sabia se seria verdadeiro. E eles haviam feito uma promessa, nunca mentiriam um para o outro. E aquilo, era uma regra. Era a prova mais bonita que havia relacionamento entre os dois. E ela sempre soube, que fora o mais sincera possível com ele, ou seja, nunca mentiu. Pelo menos, não depois de ter feito a promessa. Ela tinha as mãos dele pressionadas contra as dela, eles apertavam as mãos, como se fosse um abraço. Talvez eles já tivessem passado por aquela "separação" em outra vida. Eles sabiam que não estavam separados, porque não estavam teoricamente. Estavam um do lado outro, mas estavam separados pelas circunstâncias. Ele poderia morrer, ela poderia morrer.
- Eu só quero te dizer que você foi... - ela dizia, mas ele a interrompeu.
- Não quero ouvir isso agora - ele sorria para ela - Isso não é um tipo de despedida. Guarde o que você tem para me falar para o fim da guerra.
E ela se calou, contraditória. Ela queria dizer, mas não disse. Ficou ali parada, olhando para ele, como se suplicasse com os olhos para que ele a deixasse falar, ela precisava falar. Mas nada aconteceu. Os dois foram chamados para tomar seus postos. Estavam a trinta metros um do outro, mas ainda sim trocaram sorrisos e um "boa sorte", nenhum tipo de "amo você" foi dito, por parte dos dois. Ela se arrependeria alguns momentos depois.
O tiroteio começou, eles seriam reduzidos, pensou ela. Não restaria ninguém. Só podia. Era a pior batalha de sua vida, a mais sofrida. Mas ela estava enganada. Nem de longe aquilo seria o pior momento da sua vida. Nem se compararia. E eu posso lhe adiantar, que ela preferiria passar por aquilo mais 15 milhões de vezes, se pudesse impedir o que houve. Mas não pôde. Ela o viu morto. Se engasgando com o sangue. Sofrendo e morrendo de dor. Com Aleksei ao seu lado, injetando uma quantidade de morfina que mataria uma baleia azul. Ela correu. Quebrando todas as regras de segurança, jogando para os ares toda a estratégia.
- VOLTE AQUI! - gritou Han. - VOCÊ VAI ESTRAGAR TUDO, ELE JÁ ESTÁ MORTO!
- ELE É TUDO! GRAÇAS A ELE ESTAMOS AQUI! - ela disse, já em pé e correndo, em meio a lágrimas de desespero.
Quando chegou, viu o rosto encantador coberto de sangue e terra e se contorcendo de dor. Ele ainda não estava morto.
- Volte para lá Alex - disse Aleksei. - eu cuido dele.
- Cale a boca Aleksei.
Desesperadamente ela quis dar a sua vida em troca da dele, fez milhares de orações em troca da vida, inventou palavras, pediu com tanto força que era impossível Deus não ouvi-lá. Mas nada aconteceu, e ela o viu morrer. Bem em frente aos seus olhos, ela viu tudo o que mais amou fechando os olhos e se despedaçando. Ela quase pode enxergar a alma dele saindo para fora do corpo. Mas ela agarrou-se a ele, implorando para que vivesse.
- Por favor, só mais um pouco! Por favor, olhe para mim, olhe aqui! EI, eu estou aqui! Por favor me escute! Eu te amo! Eu amo você, por favor fique aqui! Por favor Frans, não vá! Eu te amo, te amo mais que tudo! Por favor...
E chorou.
- Eu só quero te dizer que você foi... - ela dizia, mas ele a interrompeu.
- Não quero ouvir isso agora - ele sorria para ela - Isso não é um tipo de despedida. Guarde o que você tem para me falar para o fim da guerra.
E ela se calou, contraditória. Ela queria dizer, mas não disse. Ficou ali parada, olhando para ele, como se suplicasse com os olhos para que ele a deixasse falar, ela precisava falar. Mas nada aconteceu. Os dois foram chamados para tomar seus postos. Estavam a trinta metros um do outro, mas ainda sim trocaram sorrisos e um "boa sorte", nenhum tipo de "amo você" foi dito, por parte dos dois. Ela se arrependeria alguns momentos depois.
O tiroteio começou, eles seriam reduzidos, pensou ela. Não restaria ninguém. Só podia. Era a pior batalha de sua vida, a mais sofrida. Mas ela estava enganada. Nem de longe aquilo seria o pior momento da sua vida. Nem se compararia. E eu posso lhe adiantar, que ela preferiria passar por aquilo mais 15 milhões de vezes, se pudesse impedir o que houve. Mas não pôde. Ela o viu morto. Se engasgando com o sangue. Sofrendo e morrendo de dor. Com Aleksei ao seu lado, injetando uma quantidade de morfina que mataria uma baleia azul. Ela correu. Quebrando todas as regras de segurança, jogando para os ares toda a estratégia.
- VOLTE AQUI! - gritou Han. - VOCÊ VAI ESTRAGAR TUDO, ELE JÁ ESTÁ MORTO!
- ELE É TUDO! GRAÇAS A ELE ESTAMOS AQUI! - ela disse, já em pé e correndo, em meio a lágrimas de desespero.
Quando chegou, viu o rosto encantador coberto de sangue e terra e se contorcendo de dor. Ele ainda não estava morto.
- Volte para lá Alex - disse Aleksei. - eu cuido dele.
- Cale a boca Aleksei.
Desesperadamente ela quis dar a sua vida em troca da dele, fez milhares de orações em troca da vida, inventou palavras, pediu com tanto força que era impossível Deus não ouvi-lá. Mas nada aconteceu, e ela o viu morrer. Bem em frente aos seus olhos, ela viu tudo o que mais amou fechando os olhos e se despedaçando. Ela quase pode enxergar a alma dele saindo para fora do corpo. Mas ela agarrou-se a ele, implorando para que vivesse.
- Por favor, só mais um pouco! Por favor, olhe para mim, olhe aqui! EI, eu estou aqui! Por favor me escute! Eu te amo! Eu amo você, por favor fique aqui! Por favor Frans, não vá! Eu te amo, te amo mais que tudo! Por favor...
E chorou.
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