"Querida Jo, lhe escrevo para agradecer as horas maravilhosas que passei ao seu lado. Espero que dê tudo certo para você. Que Deus cuide da tua alma durante esse período constante de morte. Um grande abraço, de sua amiga, Lucy."
" Doce Jo, papai e eu lhe escrevemos para lhe dizer que a amamos. Temos prazer em ser pais de uma criatura tão abençoada como você. Obrigada por iluminar nossas vidas, sem você não seríamos nada. Deus cuidará de você enquanto estiver longe de casa. Volte viva, sua torta estará esperando e Joe também. Com carinho, mamãe e papai."
" Amada Jo, sinto muito não ter ficado perto de você. Meu batalhão é distante de casa e muitas coisas nos separam além da distância. Mesmo assim amarei você até o fim desta guerra. E até o fim de minha vida. Com amor e apelo, seu amado Joe."
" Maldita Jo, como foi embora sem se despedir sua Saumench? Jesus, Maria e José, não se pode ficar fora por um minuto neste país e as coisas já explodem? Por Cristo! Espero que você sofra os castigos do inferno por não ter se despedido. Mas espero que sofra quando voltar para casa, e viva. Acredito em você. Acabe com esta guerra. Lhe esperarei para dar um fim nessa farsa de noivado com Joe. Amo você Saumench. Com admiração, Monica."
Lucy, sinto sua falta. Suas palavras de carinho e suas paranoias religiosas seriam como pedras preciosas neste lugar. Acho que apanharia se tentasse oferecer à algum soldado qualquer palavra de solidariedade e amor.
Mamãe e papai, amo vocês com toda a força da minha existência. Obrigada. E mamãe, não me fale mais de comida em suas cartas. Eu passo fome e já lhe disse isso.
Caro Joe, é mesmo uma pena que tenhamos ficados afastados. Precisamos muito conversar. Lhe aguardo, até o fim da guerra.
Oh querida Mo, me perdoe. Me perdoe. Não me esqueci, apenas me atrasei. Sinto muito por não ter me despedido. Mesmo assim, guardarei nossa última lembrança comendo um piquenique nojento em algum campo imundo por aí, aonde foi mesmo? Sem lágrimas, sem lágrimas. Lhe amo! E voltarei.
Sinto-me perdida. Nunca estive tão só. Na verdade já estive muito mais só do que isso, mas creio que não poderia ter uma companhia agradável com qualquer passageiro desse trem. Parece que estou indo para um banho de lama, no lixão. E eu estou limpa. E parece que todos sabem que eu estou indo sujar-me, mas estão orgulhosos. Me olham com satisfação até. Com orgulho. Um senhor caridoso e (creio eu) desinformado bateu com a mão esquerda em meu ombro e disse "Você é um orgulho para a pátria". E minha reação, imagine, foi a pior possível. Eu nada lhe disse. Apenas observei-o, com toda aquela conversa fiada, com toda aquela bosta. Que orgulho que nada, orgulho são os doutores, que salvam vidas. Eu estou apenas fugindo da guerra. Me esconder dos soviéticos que meu pai insistia em dizer que chegariam. Eu nunca tive nada contra a URSS. Eram apenas um país bem grande e bem armado. Medo? Com certeza. Só mesmo um louco não teria. Um louco com um bigode quadrado. Não tinha nada contra os soviéticos também. Fui vizinha de uns, anos atrás. Eram boas pessoas. Sempre nos levavam comida em feriados especiais e sempre eram muito hospitaleiros e festivos. Empanturravam-se de carne e vodka. E eu sendo eu, adorava. Vivia com eles. Mas agora, tudo havia mudado. Os judeus, coitadinhos. Nem sabia o que acontecia direito com eles. Apenas sabia que haviam alguns judeus em meu bairro e eles foram levados embora pelos soldados alemães. Disseram que foram lhes espancando pela rua, viram até sangue caindo a baldes de seus rostos cinzentos. Sabia só porque estavam cinzentos. Eles, os alemães. Ou eu. A nação. Os poderosos. E provavelmente (é claro!) o Terceiro Reich haviam decretado que os judeus não poderiam se desvencilhar de mantimentos alemães, ou seja, não poderiam comer da comida alemã. Uma completa babaquice, pensei comigo certo dia. É claro que existiam judeus alemães. Então, isso estaria errado não estaria? Ora bolas!
Até que eles foram levados embora dentro de um camburão da mesma cor que suas faces magras e fracas. Todos os judeus que eu conhecia. E eu? Bom eu não era judia, então fiquei.
Quem sou eu aliás? Deixe-me dizer: meu nome é Johanna Ackerman e eu tenho 25 anos. Estou dentro de um trem, por covardia de minha família. Eu sou a filha mais nova e decidiram que me colocariam no primeiro transporte que me levasse para longe de Berlim. Capital Alemã. E para que tudo isso? Está havendo uma guerra lá fora, uma guerra de que eu não me orgulho. E não me orgulho por ser parte do país que a instituiu. Lembra que lhes disse que não tinha nada contra os soviéticos? Pois bem, eu não tinha. Muito pelo contrário. Tinha muito a favor. Era comunista. Abraçava a ideia porque para mim, era justa. Os cidadãos merecem uma boa vida. E minha família, também era comunista. Por isso me encaixotaram e chutaram-me para fora de casa. Diziam eles que era por proteção. E eu sei o porquê. Vivíamos na Alemanha Nazista. 1939. Hitler chutara o pau da barraca. Jogou fora o Tratado de Versalhes. O que condizia, ir contra as comandos norte-americanos. Os poderosos. Guerra na certa. E aqui estou eu. Morrendo de medo e tremendo porque está tão frio que até as células dos meus ossos tremem. Acho hilária essa expressão, porque se estivéssemos em constante vibração e tremor assim, nosso corpo pegaria fogo, mas não, estou é com frio. E sabe-se lá Deus para onde estou indo. Nem isso aqueles velhos me disseram. Apenas sei que é para casa de uma tia que nunca conheci, irmã de meu velho pai. E é no interior da Alemanha. O que assegurava uma sensação de conforto aos meus pais. Tolice completa. Se quisessem tacar bombas lá, tacariam. Mas enfim, eu sou loura. Muito loura e de pele muito branca. De olhos azuis acinzentados e lábios avermelhados. Digo que tenho vergonha da minha aparência, um típico ariano, a raça superior. Garanto-lhes que nada de superior há em meus olhos azuis, nada me adicionam. A não ser uma arma de tecnologia alemã bem longe da minha cabeça, aliás, eles não fazem perguntas sobre código genético a alemães louros de olhos azuis. Então, não duvidam da minha "deslealdade" e podridão à pátria. Pena tinha eu, de uma velha amiga minha, que possuía cabelos louros escuros e olhos castanhos e que teve de passar por um processo de recolhimento de genes e provar ao estado que era alemã, para poder comprar comida. Sua avó, já idosa, morreu de anemia por causa do dinheiro e de alimentos que o estado lhe obrigou a não ter. E eu, loura e pálida, dos olhos azuis e vestidos até os joelhos de tecido fino e cor-de-rosa fazia o papel bonito da jovem cidadã perfeita ariana, que meu país gostaria que passasse. Meus cabelos eram compridos, mas ficavam sempre presos. Minha mãe nunca deixara eu soltá-los. Eu era de estatura média, dentro dos padrões alemães e magra como uma vareta. Com pernas esguias e braços finos e delicados. Enjoativamente comum. Não sabia muito sobre a guerra, só sabia que ela estava ali, nos portões de casa. E tinha medo de falar sobre ela. Parecia que a morte sondava todos que lhes tocasse o nome.
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