segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Parte 2. Johanna

   Eu estava dormindo. Passei a viagem toda dormindo depois que me debati sobre tudo que acontecia ao meu derredor. Lembro-me de ter sonhado com a guerra. O Terceito Reich encontrando minha família. Minha pobre família comunista. Isso sim, seria terrível. Onde estava meu espírito familiar naquele momento? Estava pensando só em mim e em como eles tinham me tirado de casa. Ah eu não deveria ter ido! Deveria ter lutado mais, persistido mais! Deixei-os sozinhos lá, em Berlim. Ah eu chorei ao lembrar-me disso. A vista embaçou e uma mecha loura caiu sobre os olhos. Eu passei as mãos umas nas outras para esquentar. Sabia que meus dedos pareciam estalactites pontudos e transparentes por baixo da luva inútil de renda que nada mais fazia a não ser enfeitar aqueles dedos magros e brancos. A manga comprida do vestido azul céu também não havia demonstrado serventia até o momento. Os sapatos, pobres sapatos de salto, foram os únicos que me deixaram orgulhosa. Pelo menos esquentavam algo junto com as meias finas "cor da pele" (branco esclerótica). Eu quis soltar meus longos cabelos louros. Deixá-los cair pelos ombros e me enrolar nele como se fosse um grande casaco de flanela amarela. Eu nem ao menos me lembrava de seu tipo, não sabia se era liso ou cacheado, ondulado ou encarapinhado. Sabia apenas que eram tão finos quanto a pele que cobria os músculos dos meus dedos agora, delicados como cristais. Porém, tive a coragem de arranca-los de dentro de suas luvas para limpar as lágrimas dos meus olhos. Não poderia chegar a rodoviária com o rosto marcado e com o pó de arroz borrado. Perder a ternura jamais. E quando eu cheguei lá, queria entrar no primeiro quarto que visse e morrer. Chorar e matar qualquer um. Claro que o arrependimento quase me matou, quando eu me deparei com o trio mais bonito de mulheres que eu vi na vida e um jovem muito bonito também. Apresentando minha nova família: 
    Camila, alta e branca (não tanto quanto eu), usava óculos e tinha cabelos louros compridos e brilhantes, soltos, porém, controlados. 
    Anne, morena com olhos grandes e azuis. Lábios carnudos e bem definidos. Muito branca e gordinha. 
    Sabine, com cabelos louros claríssimos (podia jurar que eram artificiais) e olhos pequeninos e tão verdes quanto a grama da Floresta Negra no verão, era para mim a mais bonita de todas. Com um rosto perfeito e um nariz arrebitado. 
    Albert, louro e com um rosto cansado. Forte e alto. Supostamente um soldado. 
  
   Elas me abraçaram como se fossemos parentes muitos distantes e muito ligados que não se viam há duzentos anos. Parentes distantes nós eramos de fato. Mas nem de longe eramos ligados. Eu nem sabia seus nomes, só depois das formalidades é claro. E nem me atrevi a perguntar o nome da cidade. Queria que fosse a última informação que eu teria do local. Pensar nas milhas de distâncias de casa me faria sofrer. O pior foi passar pelo mercado do povoado e ver todos eles muito felizes enquanto uma guerra se formava lá fora e muitos morriam. Muitos que não tinham nada com a história imposta pelo Terceiro Reich. Muitos judeus e muitos comunistas. Como a minha família. Não sabia se meus familiares sabiam de nosso seguimento político, então não entrei em detalhes. Não queria ser simpática nem puxar assunto, ou parecer sociável. Só queria que me odiassem e que me obrigassem a voltar para Berlim. Queria ir embora dali o mais rápido possível, para esquecer. Ou tentar esquecer. Nada seria pior que aquela apresentação ridícula da cidade e de seu povoado medíocre, ou dos melhores lugares para comprar pão, ou sapatos e todas essas coisas que estavam muito longe de ser importantes. Eu andaria descalça se me deixassem partir. Mas sentia que não me deixariam nem se eu matasse Sabine. Teria de aguentar afinal. Pensando em tudo isso, me arrependi em pensar que aquela passeata seria terrível. Terrível foi o vento e a brisa gelada que abraçaram minhas canelas, "protegidas" por meias cor de pele que de nada me serviam. 

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