segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Parte 5 - Johanna, Manuela e Sabine

    Tânia com certeza me salvou, minha (já) querida tia que eu nunca ao menos lembro-me de ter visto. Bom é claro que eu não me lembro, tinha apenas 5 anos e agora tenho 25. Se pensa que tenho memória de elefante se enganou, pois não tenho. Desculpe, não quis ser grosseira, mas sempre acontece quando estou perto daquele monstro que chamam de "Manuela", tenho vontade de vomitar quando aquela vaca branca chega perto de mim, e se já não bastasse fazer sons de ânsia para ela se afastar eu tenho que ser gentil, pois sou uma pessoa educada. Hoje ela chegou na cozinha, como se a casa fosse dela, no exato momento que eu disse que seria uma grande merda me casar com Joe e não amá-lo, creio que ela não ouviu, mas isso não me impediu de ter ficado vermelha como um tomate. E minha Tia Tânia (vejam só!) adora aquela moleca como todos os outros da casa! Se já não bastasse os meus primos, até a única pessoa que mostrava-se viva e cortês (além de Sabine) se virava contra mim. Só não entendo o que tem de tão especial naquela desgraça de pessoa, ela é tão nojenta e sem modos, tão.. tão homem. O problema é que por mais que me arda a alma dizer isso, Manuela é muito bonita. E não um bonita de falsidade (para me mostrar superior), a maldita é mesmo bonita. Bonita que me corta a cabeça de tanta inveja. Ela tinha uma cascata (uma CASCATA) de cabelos negros que iam soltos e ondulados até o traseiro, geralmente (bem as vezes) ela usava um rabo de cavalo que deixava seu rosto de porcelana mais bonito (perfeito e intocado) e eu pulava pulos que me dariam medalhas olímpicas de inveja. Creio que já mencionei a beleza da ser humana? Mas repito, o rosto da vagabunda é o mais bonito que já vi, me senti apodrecendo perto dela. Não sou muito de falar palavrão, mas penso em tantos que é até pecado. Digo isso porque não vi ninguém falar algum por aqui, e olha... lembro-me agora de quem quebrou essa referência... vamos adivinhe!

  - Tânia, que desgraça de jarro é esse? - disse para Tia Tânia, pegando um jarro de bronze que estava na grande pia. - Está todo amassado! Puta que pariu, nem parece que vocês são ricos.
 
    E eu, sentada em meu canto terminando meu delicioso copo de vinho arregalei os olhos para o animal a minha frente, ela logo percebeu.
  - Que tá olhando hein? - perguntou pra mim, desafiando-me - algum problema moça?
  - Nenhum senhorita. - respondi eu, sorridente e fofa. Digo-lhe agora que queria estrangular a criatura com a alça do jarro.
  - Vá tomar no cú então, não estou sendo paga para te aguentar. - e voltando a atenção a Tânia continuou - e então Tânia, quer que eu leve para o Josef? Não precisa pagar nada. É um presente.
  - Que tipo de gente dá um conserto num jarro de presente? Jesus, Maria e José! - eu disse quase como um rato de tão baixo, mas o diabo ouviu.
  - O tipo de gente que não está se dirigindo à você. E saiba, senhorita, que isso é uma cortesia muito grande aqui em Stuttgart. Não é Tânia?

  Então era em Stuttgart que eu me encontrava. Pensei em responder, mas não. Outra coisa me perturbava. Estava fazendo os cálculos geográficos que meu pai me ensinou pelo mapa, quantos diabos de quilômetros seria de Berlim à Stuttgart? Eu sabia! Tinha certeza que sabia, pois eu já estudei sobre Stuttgart. Só preciso me lembrar, um pouquinho. E então encontrei. Encontrei a distância e quase tive um colapso nervoso de medo, terror e traição. Estava praticamente oitocentos quilômetros de casa! OITOCENTOS QUILÔMETROS! Por que? Por que tão longe?
  - Onde eu estou?! - comecei a gritar, o pânico me atordoou - AONDE DIABOS EU ESTOU?
  - Está gritando por quê? - Manuela começou a gritar também - Está em Stuttgart, é surda também?
  - Por que Tânia? O que eu estou fazendo aqui? Por quê tão longe de casa?
  - Calma Jô.. Acalme-se. Manuela, pegue um copo de água para ela - tentou acalmar-me.
  - Não quero água, quero voltar para casa. QUERO VOLTAR PARA CASA AGORA! - e comecei a gritar com Tânia.
  - Ei guria, segure-se! - volte-se para mim, a felina.
  - Cale essa sua boca seu animal! - eu vociferei para ela - Você não sabe o que está acontecendo aqui!
  - Mas não vou deixar você gritar desse jeito com a Tânia! - e deu um passo pra frente que me fez recuar, mas logo retomei a coragem e fui pra cima dela - Cale a boca você, sente-se e acalme-se!
  - Vá à merda Manuela. Você não tem nada a ver com a minha vida.
  - Graças ao bom Deus eu não tenho nada a ver com essa vida maldita. Agora sente-se. - E veio para cima de mim com o braço levantado, como se fosse me dar um soco na cara.
  - Saia de perto de mim!! - eu gritei.
  - SENTE-SE! - gritou ela, muito perto de mim - AGORA!
  E então me empurrou para trás. Eu, magrela e desequilibrada não fiz nada mais do que cair em cima da mesa e depois no chão. Tânia com a mão na boca e os olhos arregalados não parava de fitar-me, com horror. E Manuela, com o rosto vermelho de raiva e com os olhos verdes muito muito escuros ainda me encarava com as mãos no alto, ela viria para cima de mim. Eu estava realmente assustada. Manuela parecia forte, mas ela era uma montanha. Eu nunca senti-me tão indefesa e inútil quanto me sentia no momento e quando ela me empurrou, eu senti-me jogada em frente a uma manada de búfalos. Então comecei a chorar e ela baixou os braços. E voltou-se para Tânia.
  - Tânia, me desculpe, eu não quis... Eu... - e parou de falar.
  - Não se preocupe querida, está tudo bem. - disse Tânia à ela, sorrindo docemente e arrumando seus cabelos. - Acho melhor você esperar aqui. - e depois voltou-se à mim.
  - Tudo bem querida? - perguntou para mim, com um olhar materno.
   Eu apenas fiz que não com a cabeça e desabei a chorar novamente. Antes de baixar a cabeça entre os joelhos olhei de relance para Manuela, e em seu rosto não achei uma única expressão de arrependimento. Era como se ela recolhesse sua alma para dentro do corpo e ficasse com um expressão indiferente, mas eu sabia que ela estava ali. E apenas agiu como se não houvesse nada, sem culpa e sem arrependimento. Tão fria que me perfurou.
   Logo Sabine entrou na cozinha.
  -  O que diabos está acontecendo aqui? - e quando me viu caída chorando entrou em surto também - Oh meu Deus, o que houve? O que aconteceu?
  Fez com que eu me levantasse. E me guiou pelo vestíbulo até as escadas e subiu comigo até o quarto onde me depositou na cama e me abraçou. Eu já havia desistido de chorar. Apenas abracei-a e fechei os olhos firmemente, fazendo as últimas lágrimas caírem. Ela tirou meu cabelo do rosto, eu estava horrorosa.
  - O que aconteceu lá embaixo? - perguntou-me.
  - Manuela me empurrou na mesa.
  - Como assim? - ela fez uma cara de espanto, como se Manuela nunca tivesse feito nada da espécie.
  - Ela me empurrou porque eu gritei com sua mãe.
   Ela pensou um pouco e voltou a falar:
  - Manuela considera mamãe como sua própria. Sua mãe morreu há muitos anos, nós cuidamos dela desde então.
  - Eu não sabia... Eu só estava assutada... Não foi por mal..
  - Acalme-se Jô, ninguém está te julgando, está tudo bem. O que te assustou?
  - Estou tão longe de casa!
  - Ah sim... Está um pouco. Mas é para o nosso bem, o meu, o seu e da nossa família.
  - O que está acontecendo Sabine? Me diga, por favor! Só tenho você ao meu lado!
  - Ora pare com isso, não tem só a mim. Eu sou apenas mais uma das pessoas que te amam querida. E você logo saberá o que está acontecendo. Por enquanto descanse.
  - Mais? Eu já descansei dois dias!
  - Então se arrume e vamos dar um passeio!
  - Mas eu estou horrível !
  - Por isso vai se arrumar! E ande logo, o comercio já deve estar aberto!
 

Parte 4 - Johanna e Tânia.


 Outubro de 1939. Pleno outono na Alemanha. Como dito anteriormente, eu só acordei dois dias depois que cheguei a maldita cidadela. Pelo que vi, a cidade não passava de um povoado minúsculo. Não se comparava a grandeza da metrópole, Berlim. E meu subconsciente ainda se debatia se isso era um ponto ruim ou bom. Quando eu acordei e me levantei, quase caí para trás. O sol entrava pelas cortinas e quase cegava. Era tão quente e acolhedor. Eu fiquei irada quando vi aquilo, afinal, o dia tinha que ser bizarro e nebuloso para me motivar a não levantar. Mas tinha mesmo que nascer belo e sorridente. "Tudo bem", pensei. "Uma hora eu terei que me levantar", encorajei-me. "Pode ser agora". E então me levantei da cama, afim de tomar ar da janela. Eu olhei em volta da casa e percebi que ela deveria ser a última do bairro que estava localizada, pois só havia gramado atrás e ao fundo, uma floresta. Devia ser uma floresta, eu não sabia ao certo. Pelo menos, era cercado de árvores e isso me deu o poder de intitulá-la floresta. Olhei em volta do meu quarto, e era muito elegante. Tinha um papel de parede enjoativamente rosa claro e uma mobília combinando. Um espelho, uma escrivaninha, um armário, uma mesinha ao lado da cama, a cama, e acessórios (abajur, tapete...). Então eu me vesti normalmente, sem pompons. E abri a porta.
   A casa era surpreendentemente grande. A porta do meu quarto se localizava em um corredor cheio de portas iguais a minha. Uma escada de descida a minha esquerda e uma outra de subida. Eu claro, desci. E encontrei um vestíbulo muito bem polido e brilhante, com mobília envernizada. Várias divisas de cômodos enfeitavam o grande salão.  Sala de visita, sala de jantar, biblioteca, um corredor, cozinha, banheiro e outras coisas que eu não quis vasculhar. Eu não fazia questão de conhecer a casa, pois eu sairia dali logo, então decidi que não fuçaria em nada, para não me interessar e convencer-me a ficar. Ouvi um farfalhar sedutor na cozinha, uma coisa convidando-me a entrar; Era o som de panelas tintilando e não sei porque diabos aquilo me atraiu. Não era do tipo que limpava panelas ou cozinhava. Cozinhar era uma realidade distante da minha. Mas vi uma senhora, não uma velha, apenas uma senhora, fuçando num armário de panelas desajeitadamente. Ela estava tão elegante para procurar panelas que eu até me assustei.
  - Ahh bom dia! - Ela virou-se para mim e foi como se visse um leproso completamente curado - Que bom que se levantou! Já estava ficando preocupada... Sente-se, sente-se. Gostaria de beber algo? Um pouco de café quem sabe? Para lhe ajudar a ter energia? Ou vinho? Ah vinho! Seria ótimo beber um pouco de vinho não seria? - e ela foi, vasculhando por entre os armários a procura de taças, encontrando a garrafa de vinho Eiswein e levando-o consigo ao caminho das taças - Este vinho é maravilhoso! As suas uvas são colhidas no inverno e ele é amassado somente por mulheres louras vindas das grandes cidades! - então ela deu uma cheirada no conteúdo - Wunderbar ! - e quando encontrou as taças colocou-as na mesa e chamou-me com um aceno de mão - Aproxime-se querida, venha deliciar essa obra prima das mulheres!
   Eu eu ria, deliciada com a situação. Ela devia ter uns cinquenta anos, mas era jovial. E com uma energia extravagante! Quando provei o vinho, senti sua excitação fora do normal. Era tão delicioso que eu passaria a vida toda embriagada e embargada com aquele gosto na boca sem me queixar. Era uma safra antiga e deliciosa.
  - Lecker ! Um ótimo vinho! - eu sorria e fazia o conteúdo rebolar dentro da taça - Desculpe-me -disse envergonhada - Quem é a senhora?
  - Ahh querida... Tânia! Titia Tânia Ackerman. Sou a pobre irmã de seu pai! - extravagante e contagiosa, eu queria dançar ao lado daquela mulher - Bom, sou eu. E você, linda Jô! Tão crescida e tão moça. A última vez que te vi você tinha apenas cinco aninhos. Estou tão feliz de recebê-la! 
  - Não quero atrapalhar em nada.. 
  - Jamais querida! Nem pense nisso! É ótimo tê-la aqui. Sabine está irradiante por sua companhia. Conheceu Sabine não é? Ela te buscou na rodoviária? 
  - Sim, Sabine e mais três. 
  - Ah sim, meus quatro tesouros. Sabine, Camila, Anne e Albert. Conheceu todos? O que achou deles? 
  - Sim, conheci a todos. São muito simpáticos. Os olhos de Sabine são lindos. 
  - Ahhh, Sabine e seus olhos. Ela os herdou do pai. Todos estão felizes em recebê-la aqui. 
  - Será que posso perguntar...A idade deles? - eu hesitei, geralmente perguntas daquela espécie eram tomadas como ofensas. 
  - Ora, mas é claro que pode. Sabine é a mais velha, tem 25 anos, como você. Camila tem 23, Anne tem 21 e Albert 19. Me casei nova Johanna, com apenas 22 anos. 
   Eu não soube o que dizer. Diria "que pena"? Seria uma ofensa aos filhos. E se dissesse "que ótimo" seria uma ofensa sobre a sua infelicidade em casar nova. Então, fiz uma pergunta ainda mais arriscada. 
  - Mas você ama seu marido? 
  É claro que minha tia ficou chocada. Eu não tinha direito de invadir sua  vida pessoal daquela maneira, não tinha afinidade muito menos intimidade para fazê-lo. Uma extrema falta de educação. 
  - Não naquele tempo. Mas eu o amo muito hoje. Amo-o demais. 
  - Isso é bom. 
  O silêncio constrangedor se estabeleceu novamente pela cozinha. Então Tânia guardou o vinho em seu armário e voltou-se para mim, sentando-se na mesa, bem em frente ao meu rosto. 
  - Você está para se casar, não está? 
  - Sim estou. 
  - E onde está seu noivo? 
  - Na guerra. 
  - Luftwaffe? 
  - Provavelmente. Prefiro não saber,
  - E por quê prefere não saber? Você sofreria se soubesse? 
  - Ainda não sei se sofreria. 
  Adorava Joe, realmente o adorava mesmo sendo obrigada a casar com ele, coisa que eu adiei por muito tempo.  Nem sei como meus pais não desconfiaram de todas as minhas artimanhas para enganá-los quanto ao assunto "casar-me com Joe", o fato era: eu não queria me casar com Joe e ponto final. Mas ninguém nunca me ouviu, então estar longe de Joe pelo tempo da guerra era um alívio, quase como se me livrasse do carma, mas por outro lado era triste, porque Joe sempre foi um ótimo amigo e excelente ouvinte, sempre teve certeza que eu o amava e por isso ficava o máximo de tempo comigo, isso era muito agradável até o momento que ele decidiu pressionar-me quanto a data do nosso casamento, e ocorreu apenas três semanas antes dele ser obrigado a ir para a guerra. Deus abençoe Hitler por isso. Ah desculpe-me, não devia falar essas coisas! Aquele homem maldito!! Mas Joe era simplesmente um jovem apaixonado pela vida. Seu grande sonho era ser um escritor de fantasia ou um artista surrealista como Salvador Dalí, mas o pai o obrigou a prestar Direito e ele, teve de fazê-lo. Joe vinha de uma ilustre família de advogados nojentos, no qual todos eles faziam parte (enchendo o peito para falar) da lista mais importante do Partido Nazista. Minha família, também muito rica e do ramo de engenharia fazia parte do Partido Nazista, porém, simplesmente para se camuflar dos verdadeiros nazistas. Joe vomitava palavras de orgulho por ser alemão, por ser nazista, por ser alemão, por ser louro, por ser alemão... Ele também fez parte da Escola Militar Hitlerista e era um colírio. Muitas moças dignas eram loucas e caídas por Joe, e ele caia na gandaia com várias delas durante as noites do nosso noivado porque eu sempre soube (afinal, é isso que se ganha quando é amiga dos empregados que sempre estão nas noitadas da cidade) e eu nunca liguei, nunca amei-o e pelo que sentia nunca o amaria. Era mais fácil amar Sabine do que amar Joe. 
  - Você o ama? - perguntou-me ela. 
  - Não. 
  - Você quer se casar com ele?  
  - Jamais. Mas creio que minhas vontades nem sempre são bem atendidas, ou bem compreendidas. 
  - Você ainda é criança para tomar decisões, creio que seus pais saibam o que estão fazendo. Você acha que poderia ama-lo algum dia? 
  - Acho que sim. Mas não o amo agora. 
  - Eu nunca achei que amaria seu tio. Será que os processos se invertem? E se você nunca amar Joe? 
  - Seria uma grande merda! 
  E caímos na risada, naquela cozinha bem planejada e iluminada.