Tânia com certeza me salvou, minha (já) querida tia que eu nunca ao menos lembro-me de ter visto. Bom é claro que eu não me lembro, tinha apenas 5 anos e agora tenho 25. Se pensa que tenho memória de elefante se enganou, pois não tenho. Desculpe, não quis ser grosseira, mas sempre acontece quando estou perto daquele monstro que chamam de "Manuela", tenho vontade de vomitar quando aquela vaca branca chega perto de mim, e se já não bastasse fazer sons de ânsia para ela se afastar eu tenho que ser gentil, pois sou uma pessoa educada. Hoje ela chegou na cozinha, como se a casa fosse dela, no exato momento que eu disse que seria uma grande merda me casar com Joe e não amá-lo, creio que ela não ouviu, mas isso não me impediu de ter ficado vermelha como um tomate. E minha Tia Tânia (vejam só!) adora aquela moleca como todos os outros da casa! Se já não bastasse os meus primos, até a única pessoa que mostrava-se viva e cortês (além de Sabine) se virava contra mim. Só não entendo o que tem de tão especial naquela desgraça de pessoa, ela é tão nojenta e sem modos, tão.. tão homem. O problema é que por mais que me arda a alma dizer isso, Manuela é muito bonita. E não um bonita de falsidade (para me mostrar superior), a maldita é mesmo bonita. Bonita que me corta a cabeça de tanta inveja. Ela tinha uma cascata (uma CASCATA) de cabelos negros que iam soltos e ondulados até o traseiro, geralmente (bem as vezes) ela usava um rabo de cavalo que deixava seu rosto de porcelana mais bonito (perfeito e intocado) e eu pulava pulos que me dariam medalhas olímpicas de inveja. Creio que já mencionei a beleza da ser humana? Mas repito, o rosto da vagabunda é o mais bonito que já vi, me senti apodrecendo perto dela. Não sou muito de falar palavrão, mas penso em tantos que é até pecado. Digo isso porque não vi ninguém falar algum por aqui, e olha... lembro-me agora de quem quebrou essa referência... vamos adivinhe!
- Tânia, que desgraça de jarro é esse? - disse para Tia Tânia, pegando um jarro de bronze que estava na grande pia. - Está todo amassado! Puta que pariu, nem parece que vocês são ricos.
E eu, sentada em meu canto terminando meu delicioso copo de vinho arregalei os olhos para o animal a minha frente, ela logo percebeu.
- Que tá olhando hein? - perguntou pra mim, desafiando-me - algum problema moça?
- Nenhum senhorita. - respondi eu, sorridente e fofa. Digo-lhe agora que queria estrangular a criatura com a alça do jarro.
- Vá tomar no cú então, não estou sendo paga para te aguentar. - e voltando a atenção a Tânia continuou - e então Tânia, quer que eu leve para o Josef? Não precisa pagar nada. É um presente.
- Que tipo de gente dá um conserto num jarro de presente? Jesus, Maria e José! - eu disse quase como um rato de tão baixo, mas o diabo ouviu.
- O tipo de gente que não está se dirigindo à você. E saiba, senhorita, que isso é uma cortesia muito grande aqui em Stuttgart. Não é Tânia?
Então era em Stuttgart que eu me encontrava. Pensei em responder, mas não. Outra coisa me perturbava. Estava fazendo os cálculos geográficos que meu pai me ensinou pelo mapa, quantos diabos de quilômetros seria de Berlim à Stuttgart? Eu sabia! Tinha certeza que sabia, pois eu já estudei sobre Stuttgart. Só preciso me lembrar, um pouquinho. E então encontrei. Encontrei a distância e quase tive um colapso nervoso de medo, terror e traição. Estava praticamente oitocentos quilômetros de casa! OITOCENTOS QUILÔMETROS! Por que? Por que tão longe?
- Onde eu estou?! - comecei a gritar, o pânico me atordoou - AONDE DIABOS EU ESTOU?
- Está gritando por quê? - Manuela começou a gritar também - Está em Stuttgart, é surda também?
- Por que Tânia? O que eu estou fazendo aqui? Por quê tão longe de casa?
- Calma Jô.. Acalme-se. Manuela, pegue um copo de água para ela - tentou acalmar-me.
- Não quero água, quero voltar para casa. QUERO VOLTAR PARA CASA AGORA! - e comecei a gritar com Tânia.
- Ei guria, segure-se! - volte-se para mim, a felina.
- Cale essa sua boca seu animal! - eu vociferei para ela - Você não sabe o que está acontecendo aqui!
- Mas não vou deixar você gritar desse jeito com a Tânia! - e deu um passo pra frente que me fez recuar, mas logo retomei a coragem e fui pra cima dela - Cale a boca você, sente-se e acalme-se!
- Vá à merda Manuela. Você não tem nada a ver com a minha vida.
- Graças ao bom Deus eu não tenho nada a ver com essa vida maldita. Agora sente-se. - E veio para cima de mim com o braço levantado, como se fosse me dar um soco na cara.
- Saia de perto de mim!! - eu gritei.
- SENTE-SE! - gritou ela, muito perto de mim - AGORA!
E então me empurrou para trás. Eu, magrela e desequilibrada não fiz nada mais do que cair em cima da mesa e depois no chão. Tânia com a mão na boca e os olhos arregalados não parava de fitar-me, com horror. E Manuela, com o rosto vermelho de raiva e com os olhos verdes muito muito escuros ainda me encarava com as mãos no alto, ela viria para cima de mim. Eu estava realmente assustada. Manuela parecia forte, mas ela era uma montanha. Eu nunca senti-me tão indefesa e inútil quanto me sentia no momento e quando ela me empurrou, eu senti-me jogada em frente a uma manada de búfalos. Então comecei a chorar e ela baixou os braços. E voltou-se para Tânia.
- Tânia, me desculpe, eu não quis... Eu... - e parou de falar.
- Não se preocupe querida, está tudo bem. - disse Tânia à ela, sorrindo docemente e arrumando seus cabelos. - Acho melhor você esperar aqui. - e depois voltou-se à mim.
- Tudo bem querida? - perguntou para mim, com um olhar materno.
Eu apenas fiz que não com a cabeça e desabei a chorar novamente. Antes de baixar a cabeça entre os joelhos olhei de relance para Manuela, e em seu rosto não achei uma única expressão de arrependimento. Era como se ela recolhesse sua alma para dentro do corpo e ficasse com um expressão indiferente, mas eu sabia que ela estava ali. E apenas agiu como se não houvesse nada, sem culpa e sem arrependimento. Tão fria que me perfurou.
Logo Sabine entrou na cozinha.
- O que diabos está acontecendo aqui? - e quando me viu caída chorando entrou em surto também - Oh meu Deus, o que houve? O que aconteceu?
Fez com que eu me levantasse. E me guiou pelo vestíbulo até as escadas e subiu comigo até o quarto onde me depositou na cama e me abraçou. Eu já havia desistido de chorar. Apenas abracei-a e fechei os olhos firmemente, fazendo as últimas lágrimas caírem. Ela tirou meu cabelo do rosto, eu estava horrorosa.
- O que aconteceu lá embaixo? - perguntou-me.
- Manuela me empurrou na mesa.
- Como assim? - ela fez uma cara de espanto, como se Manuela nunca tivesse feito nada da espécie.
- Ela me empurrou porque eu gritei com sua mãe.
Ela pensou um pouco e voltou a falar:
- Manuela considera mamãe como sua própria. Sua mãe morreu há muitos anos, nós cuidamos dela desde então.
- Eu não sabia... Eu só estava assutada... Não foi por mal..
- Acalme-se Jô, ninguém está te julgando, está tudo bem. O que te assustou?
- Estou tão longe de casa!
- Ah sim... Está um pouco. Mas é para o nosso bem, o meu, o seu e da nossa família.
- O que está acontecendo Sabine? Me diga, por favor! Só tenho você ao meu lado!
- Ora pare com isso, não tem só a mim. Eu sou apenas mais uma das pessoas que te amam querida. E você logo saberá o que está acontecendo. Por enquanto descanse.
- Mais? Eu já descansei dois dias!
- Então se arrume e vamos dar um passeio!
- Mas eu estou horrível !
- Por isso vai se arrumar! E ande logo, o comercio já deve estar aberto!
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