segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Parte 6 - Johanna, Manuela e Sabine.

  Eu estava preparada para fazer aquilo que sempre sonhei. Estava preparada para jogar-me no mundo como nunca fiz antes na vida, estava preparada para sorrir e para sonhar. Para fazer os sonhos virarem realidade. Nunca senti-me tão feliz por ir à cidade, Sabine me disse que isso significa fazer coisas erradas sem que os pais saibam, o que era uma coisa comum por ali (não estou sendo prepotente, ela que me disse isso). E finalmente enquanto me trocava me senti feliz, me senti bonita, me senti invencível. "Que venha Manuela" pensei eu. Pois eu coloquei uma calça! Uma calça de flanela cor de chumbo com uma camisa de algodão branca enfiada e afofada, com um colete de couro e botas de feltro. Mas ainda não era a melhor parte, ela só ocorreu quando eu finalmente soltei o cabelo. Quando toquei-o, quando peguei-o e deixei-o escorrer por entre os dedos, quando brinquei com ele e passei as mãos por toda sua extensão. Ele era comprido, longo e com fios finos e louros acinzentados, que formavam cachos bonitos. Eles tinham o tamanho dos cabelos de Manuela e eu nunca me senti tão bonita quanto me sentia. Se Joe me visse... Provavelmente me espancaria, aquela atitude era intolerável. Mas vestir-me como homem foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Era fim de tarde e todos estavam se preparando para a noite, o comércio ainda estava aberto, mas fecharia logo. Os bares encheriam as ruas e a música começaria, além da luz e das risadas, ouviríamos também as histórias dos bêbados sobre mulheres e pescaria misturado com o cheiro de cerveja e costela de carneiro. Tudo isso era deliciosamente tentador e eu queria mais era me jogar no meio disso tudo e fechar os olhos para ver o que aconteceria. "Você seria violentada, ou assassinada" disse Sabine.
  - Não faça barulho, meu pai e Albert estão em casa e se nos virem com essas roupas estamos mortas. - alertou-me Sabine.
  Ela disse à Tânia que iriamos jantar na casa de uma amiga sua do colégio e que voltaríamos tarde. Oh Tânia, pobre Tânia. Houve até uma leviana brincadeira sobre tal assunto.
   - Não engane Tânia perto de Manuela, senão ela te empurra no meio do Oceano.
   - Não farei isso perto dela, obrigada pelo aviso. - uma piscadela com os olhos de esmeralda. As mulheres daqui parecem muito mais belas do que as mulheres da cidade grande e isso estava me irritando. Eu me sentia um pedaço de maçã podre perto de tais beldades.
    Mas enfim chegamos ao centro do mundo, ao meu lugar no Universo.
    E entramos de cabeça no bar.
    Como homens de cabelos sedosos e compridos. Como senhores que possuíam glândulas mamarias e coxas femininas. Mas não eramos a única, pois já havia uma figura ali.
    E ela estava tão parecida comigo em sua roupa, uma calça de flanela também cor de chumbo e uma camisa de algodão também branca, e botas igualmente de feltro. Só tinha cabelos pretos e olhos verdes (e um rosto feito diretamente por Deus). Ela estava muito bêbada e era fácil perceber isso pelo modo como ela gritava e ria, como se não tivesse ocorrido nada naquela tarde. Eu fiquei irada, mas feliz, ela provavelmente não se lembraria de mim.
   - Sabine!!!!! Minha querida SabineEeEeEeE - não se lembrou de mim, mas se lembrou de Sabine. E veio cantarolando até nós.
   - Olá Manuela! - disse Sabine numa felicidade incalculável. Fiquei com inveja/ciúme de sua amizade com Manuela.
     Elas se abraçaram e algum homem muito feio e muito barbudo murmurou alguma coisa para Manuela, que com delicadeza respondeu:
   - Vá a merda. Já estou indo. - e olhou para mim - Moça da cidade grande! - reconheceu-me.
   - Boa tarde Manuela.
   - Já te mandei ir à merda também? - e com uma cambaleada violenta, quase me jogou por cima do balcão enquanto me abraçava pelo pescoço. - O negócio é o seguinte, se você está dentro de um bar depois das cinco horas da tarde, seus modos ficam na porta.
     E com uma piscadela marota, se afastou e voltou para a mesa. Deduzi que estivesse jogando pôquer com os homens de meia idade. Não me interessei por Manuela depois daquele desencontro. Virei-me para Sabine, que me olhava com uma expressão de indiferença, mas percebi que em suas mãos delicadas haviam duas canecas grandes e espumantes. Cerveja. Tive certeza.
    - Da melhor choperia do mundo, para as nossas gargantas.
    Garganta virgem, só para constar. Eu nunca tinha colocado uma gota de álcool barato na minha vida. A sensação foi horrível, eu odiei o gosto. Quase morri de decepção. Mas ninguém precisava saber. Então me esbaldei de canecos e mais canecos de inúmeros litros de Cerveja Alemã Larger Hofbräu Munchen. Ouvi comentários de que o produtor da cerveja, a empresa Hofbräu era a maior produtora de cerveja da Alemanha e do mundo, "já que os alemães são melhores em tudo" e estava localizada em Munique, próximo a Stuttgart. Toda vez que ouvia falar do nome da cidade, tinha vontade de gritar. Era tão longe. Munique também era tão longe. Estava tão, tão longe! E as coisas que eu começava a gostar também estavam tão distantes de casa. Onde mais eu beberia cerveja se não fosse em Stuttgart? E se Munique (que era a cidade perfeita) produzia uma cerveja tão ruim (ao meu gosto[porém tragável ), imagine os lixos que rodeavam Berlim? Não gostava de me sentir daquele jeito, era quase desprezível. Me revirava o estômago, me levava lembranças que eu não queria lembrar, não ali, não naquele momento. Eu queria mais era esquecer daquilo tudo e ir dançar, jogar pôquer (mesmo que não soubesse) e gritar feito... Feito... Feito Manuela. Alguma coisa naquela mulher me prendia a atenção, como se me atraísse. E por mais que eu enchesse a cara, não conseguia fazer as coisas ruins irem embora, me deixarem em paz. Elas iam e vinham como enxurradas, o tempo todo. "Saiam malditas!", tentei gritar. "Saiam!!". E nada acontecia. Eu continuava a me lembrar de casa, a me sentir triste, me sentir uma traidora. Continuava a pensar nos meus pais e em como eles corriam perigo, enquanto eu me embebedava. Só não cai aos prantos ali mesmo, porque alguém se sentou do meu lado, e começou o diálogo mais anormal da minha vida.
  - Que é? Que está havendo? - perguntou Manuela, com uma sutileza encantadora.
  - Não te interessa, me deixe em paz. - Respondi. Estava borbulhando de ódio, raiva e... vontade de tê-la por ali, ao meu lado.
  - Olhe, desculpe pelo que houve hoje. Eu explodi. Não sou assim. - e pegou na minha mão - Juro. Não sou esse tipo de pessoa que mostrei para você, deixe-me melhorar isso!
  - Como você melhoraria? - perguntei. Desafiando seus olhos cor de esmeralda viva.
  - Deixe-me leva-lá para conhecer a cidade. - E chegou mais perto do meu rosto.
  - Sabine já está encarregada disso. - Respondi com frieza, sem me esquivar de seus atos, deixando que ela conduzisse, que tivesse controle.
  - Então vou leva-lá à outro lugar, que nem mesmo Sabine conhece! - E com um sorriso orgulhoso e satisfeito, se afastou e pegou um copo de cerveja.
   Eu não queria que ela tivesse se afastado, queria que ela ficasse perto de mim. Me sentia segura, me sentia... diferente.
  - Por que você está fazendo isso afinal? - perguntei - Há menos de duas horas você me jogou por cima de uma mesa.
  - Já te disse que não estava muito bem. - Disse isso e limpou a espuma da cerveja que lhe sobrou nos lábios com as mangas da blusa. - E, eu gosto de você.
  - Como se nem me conhece? - minha raiva tinha cessado. O que era aquilo? Qual o poder aquela moça tinha sobre as pessoas?
  - Mas quero conhecê-la. Qual é o teu nome? - e chegou novamente bem perto do meu rosto.
  - Johanna.
  - Bonito nome, combina com você. Você é muito bonita. - com o dedo indicador, afastou uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha - Deixe-me redimir Johanna. Estou sendo sincera.

  Não sei onde estou com a cabeça...
  - Não sei bem... - e baixei a cabeça.
  - Pense bem, eu não sou um monstro - e levantou meu rosto. Seus olhos haviam escurecido com uma rapidez surreal, há meio segundo estavam brilhantes e agora, estavam opacos e distantes. Fitando-me.
   Eu fui para frente, com intenção de beijá-la.
   Ela largou meu rosto, e saiu.
   E... E... E... O que tinha sido aquilo? O que houve? Eu havia... flertado? FLERTADO? COM UMA MULHER? O que estava acontecendo? Precisava ir embora. Precisa encontrar Sabine. Estava em pânico. Assustada, enjoada, deslocada... derrotada. Me senti tonta. Como se o álcool finalmente tivesse resolvido surtir um efeito. Não era uma boa hora. Eu ia morrer.
  - Sabine! Sabine! - berrei. Precisava sair daquele lugar o mais rápido possível - Sabine!
  - Que foi?
  - Sabine... Me leve embora daqui!