terça-feira, 28 de agosto de 2012

Parte 3 - Johanna e Manuela.

Já contei como foi insuportável andar pela cidade interiorana? Acho que sim, mas devo lhe acrescentar, que tudo o que você deve ter pensando não é tão ruim quanto imagina. É bem pior. Além de ter sido ridículo, pois todas as moças usavam algo nos pés mais parecido com galochas do que com o sapatinho de salto que em meu pé estava descansado confortavelmente. E os moços, todos com roupas surradas de trabalho no campo. Lembro-me especialmente dos casacos de couro que eles usavam e que em muito me atraíram. Eu sempre quis usar casaco de couro por cima de uma blusa de algodão, enfiada numa calça de flanela e com os com as pernas cobertas até os tornozelos por uma bota resistente. Assim como os homens daquela cidade. Algo me atraia. E mais me atraiu quando eu vi uma moça, usando aquele tipo de roupa. É claro que a minha primeira reação foi arregalar os olhos demonstrando nojo para os meus familiares, mas só quando a mesma senhorita se aproximou de mim foi que percebi que naquele lugar, aquele tipo de atitude (de vestimenta) não interferia tanto no que era a pessoa de fato. Eu gostei daquilo, sentia-me mais confortável em meio aquele povoado que não tinha a mínima noção de sutileza e elegância. Porque para mim a elegância nunca serviu de nada. Eu queria mesmo era andar descalça (ou de bota), soltar os cabelos e fumar tabaco, até mesmo beber cerveja. Coisa que eu não fazia, porque era deselegante e vulgar. Por isso sumir da Berlim era o meu maior sonho e meu maior pesadelo. Queria fazer coisas e me sentir livre de toda aquela lei nojenta, queria ser  como os outros, queria ter as mesmas coisas que eles e poderia viver no campo, apenas comendo o que eu plantasse se pudesse fazer o que eu queria fazer na metrópole e (OBVIAMENTE) não podia. Coisas citadas acima.
  Meus familiares cumprimentaram a tal moça, tão bonita que quase encheu meus olhos de lágrimas de inveja. Ou de admiração. Ainda não tinha encontrado o sentimento certo. Soube apenas que seu nome era Manuela Baumann. Agora lhe digo o que naquela mulher me atraiu tanto. Seus olhos eram tão verdes quanto os de Sabine e os cabelos, eram pretos. Pretos como o tabaco queimado. Ela era apenas alguns centímetros mais alta que eu e parecia mais saudável também. Digo isso pelo seu tipo físico, pois tinha certeza que ela dividia uma lata de sopa com oito irmãos. Não que eu fosse esnobe ou nada disso, eu só fui criada na metrópole e por mais estranho que isso pareça, os alemães odeiam as diferenças regionais e suas populações. Ou seja, odiamos as pessoas que não sejam do nosso mesmo chiqueiro. Pelo menos, em Berlim é assim. Ela tinha uma pose muito masculina, se não fosse pelo seus rosto bem desenhado e seus cabelos longos seria facilmente confundida com um homem. Se colocasse um chapéu também. Ela usava uma calça de flanela folgada e preta, com uma blusa de algodão azul escura e por cima um colete e um casaco de couro. E com botas de sabe-se lá que tecido muito gastas. Ela mascava algo. Fazia bem o papel de caipira. Só faltou estalar os dedos e levantar as sobrancelhas; Porém, ela tinha um sorriso doce e feminino e cílios compridos e sobrancelhas delineadas. Todos pretos. Ah mas que moça bonita. Me senti um nojo perto dela, com aquele vestido mesquinho e aquelas luvas inúteis de renda!! O pior mesmo, foi quando ela voltou a atenção para mim, mirando-me de cima embaixo.
  - Quem é esta aí? - perguntou a Sabine.
  - Minha prima de Berlim. Acabou de chegar. - respondeu Sabine, finalmente definindo nosso parentesco.
  - Hum. Ela se parece mesmo com uma alemã. - olhou-me friamente.

   Eu sou educada, mas não sou burra. E não sou do tipo que aguenta calada.
  - Por que faço bem o papel de alemã? Por acaso a senhorita não é alemã? - perguntei, com uma sobrancelha levantada.
  - Claro que sou. É que a senhorita tem cara de nojenta, assim como aqueles alemães idiotas de metrópoles. A senhorita é de metrópole não é?

  Eu senti a entonação no senhorita. Uma entonação bem cínica.
  - Sou sim, se não ouviu bem, e creio que seja porque seus ouvidos são surrados pelo trabalho no campo, eu sou de Berlim.
  E também não sou preconceituosa, mas sei ser cínica. Ora, você está me entendendo não está?
  Ela sorriu, mas não com cinismo. Eu até me senti culpada por ter sido tão grosseira. Mas claro que ela passaria no minuto seguinte.
 - Está vendo essas mãos? - ela mostrou-me as mãos calejadas - Elas trabalham no campo o dia todo. Sugiro que tire seus pompons de renda e comece a aprender a pegar numa inchada, porque a audição será dos problemas, o menor, depois que você ficar um mês por aqui.
  Eu queria mostrar para ela que não tinha medo, mas não consegui. Eu morria de medo. Era tão inútil quanto as minhas luvas, tanto que nem sabia fazer serviços de casa. Não sabia lavar uma louça. Imagine-me arando um solo, ou fazendo algum trabalho produtivo com as minhas mãos pequenas? Seria fracasso. Se dependessem de mim, passariam fome. E é claro que Manuela percebeu meu pânico e não tardou a cair na gargalhada. Era o objetivo dela aliás. Eu a coloquei no chão minutos atrás, agora, ela sapateava em cima de mim.
   - Não se preocupe. - ela sorria ainda - nós somos caipiras mas sabemos tratar as visitas bem. Não vai precisar arar o solo. Mas tenho certeza que seria inútil.
    E voltou a olhar Sabine e a trupe com lágrimas de risos nos olhos, e despediu-se. Quando estava quase sumindo virou-se ainda rindo e me acenou um tchauzinho. Eu, claro, não retribui.
    Fiquei irada, mas logo veio Sabine, acalmando-me.
   - Não fique envergonhada. - ela afagou meu ombro tenso - ela é assim com todos. É difícil no começo, mas você se acostuma com tudo isso.
  Eu queria perguntar várias coisa para ela, mas apenas olhei e não fiz nada. Fiquei calada. Chegamos na fazenda, e fui apresentada ao meu quarto. Passei dois dias recebendo comida no quarto, sem me levantar nem para tomar banho, chorando. Não tinha nem percebido que depois de dois dias, o frio já começava a passar e o sol nascia brilhando e sorrindo para o interior.

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